
                               O PRNCIPE

                               Maquiavel

                     AO MAGNFICO LORENZO DE MEDICI

                           NICOL MACHIAVELLI



                                 NDICE



                          {3} DOS PRINCIPADOS
                                    
             {4} Captulo II. Dos principados hereditrios 
                                    
               {5} Captulo III. Dos principados mistos 
                                    
{6} Captulo IV. Por que o reino de Dario, ocupado por Alexandre, no se
           rebelou contra seus sucessores aps a morte deste 
                                    
{7} Captulo V. De que modo se devam governar as cidades ou principados
     que, antes de serem ocupados, viviam com as suas prprias leis
                                    
 {8} Captulo VI. Dos principados novos que se conquistam com as armas
                       prprias e virtuosamente 
                                    
{9} Captulo VII. Dos principados novos que se conquistam com as armas e
                          fortuna dos outros 
                                    
 {10} Captulo VIII. Dos que chegaram ao principado por meio de crimes 
                                    
                 {11} Captulo IX. Do principado civil 
                                    
{12} Captulo X. Como se devem medir as foras de todos os principados 
                                    
            {13} Captulo XI. Dos principados eclesisticos 
                                    
 {14} Captulo XII. De quantas espcies so as milcias, e dos soldados
                              mercenrios 
                                    
    {15} Captulo XIII. Dos soldados auxiliares, mistos e prprios 
                                    
{16} Captulo XIV. O que compete a um prncipe acerca da milcia(tropa) 
                                    
{17} Captulo XV. Daquelas coisas pelas quais os homens, e especialmente
              os prncipes, so louvados ou vituperados .
                                    
          {18} Captulo XVI. Da liberalidade e da parcimnia 
                                    
{19} Captulo XVII. Da crueldade e da piedade; se  melhor ser amado que
                   temido, ou antes temido que amado 
                                    
   {20} Captulo XVIII. De que modo os prncipes devem manter a f da
                             palavra dada 
                                    
  {21} Captulo XIX. De como se deva evitar o ser desprezado e odiado 
                                    
{22} Captulo XX. Se as fortalezas e muitas outras coisas que a cada dia
              so feitas pelos prncipes so teis ou no
                                    
    {23} Captulo XXI. O que convm a um prncipe para ser estimado 
                                    
 {24} Captulo XXII. Dos secretrios que os prncipes tm junto de si 
                                    
          {25} Captulo XXIII. Como se afastam os aduladores 
                                    
{26} Captulo XXIV. Por que os prncipes da Itlia perderam seus estados
                                    
                                    
{27} Captulo XXV. De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que
                       modo se lhe deva resistir 
                                    
{28} Captulo XXVI. Exortao para procurar tomar a Itlia e libert-la
                         das mos dos brbaros 
                                    
        {29} Carta de Machiavelli a Francesco Vettori, em Roma 
                                    
                                    
                                    
                               O PRNCIPE
                                    
                                    
                                    
Costumam, o mais das vezes, aqueles que desejam conquistar as graas de
um Prncipe, trazer-lhe aquelas coisas que consideram mais caras ou nas
    quais o vejam encontrar deleite, donde se v amide serem a ele
 oferecidos cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros
ornamentos semelhantes, dignos de sua grandeza. Desejando eu, portanto,
 oferecer-me a Vossa Magnificncia com um testemunho qualquer de minha
submisso, no encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais cara ou
  que tanto estime, quanto o conhecimento das aes dos grandes homens
 apreendido atravs de uma longa experincia das coisas modernas e uma
   contnua lio das antigas as quais tendo, com grande diligncia,
   longamente perscrutado e examinado e, agora, reduzido a um pequeno
                  volume, envio a Vossa Magnificncia.
                                    
 E se bem julgue esta obra indigna da presena de Vossa Magnificncia,
no menos confio que deva ela ser aceita, considerado que de minha parte
 no lhe possa ser feito maior oferecimento seno o dar-lhe a faculdade
   de poder, em tempo assaz breve, compreender tudo aquilo que eu, em
tantos anos e com tantos incmodos e perigos, vim a conhecer. No ornei
este trabalho, nem o enchi de perodos sonoros ou de palavras pomposas e
    magnficas, ou de qualquer outra figura de retrica ou ornamento
  extrnseco, com os quais muitos costumam desenvolver e enfeitar suas
 obras; e isto porque no quero que outra coisa o valorize, a no ser a
 variedade da matria e a gravidade do assunto a tornarem-no agradvel.
Nem desejo se considere presuno se um homem de baixa e nfima condio
ousa discorrer e estabelecer regras a respeito do governo dos prncipes:
assim como aqueles que desenham a paisagem se colocam nas baixadas para
   considerar a natureza dos montes e das altitudes e, para observar
aquelas, se situam em posio elevada sobre os montes, tambm, para bem
conhecer o carter do povo,  preciso ser prncipe e, para bem entender
o do prncipe,  preciso ser do povo. Receba, pois, Vossa Magnificncia
   este pequeno presente com aquele intuito com que o mando; nele, se
 diligentemente considerado e lido, encontrar o meu extremo desejo de
     que lhe advenha aquela grandeza que a fortuna e as outras suas
 qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificncia, das culminncias em
  que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo, notar quo
        imerecidamente suporto um grande e contnuo infortnio.
                                    
                                    
                                    
                               CAPTULO I
                                    
                                    
                                    
                                    
                                    
   DE QUANTAS ESPCIES SO OS PRINCIPADOS E DE QUE MODOS SE ADQUIREM
                                    
      (QUOT SINT GENERA PRINCIPATUUM ET QUIBUS MODIS ACQUIRANTUR)
                                    
                                    
                                    
 Todos os Estados, todos os governos que tiveram e tm autoridade sobre
os homens, foram e so ou repblicas ou principados. Os principados so:
ou hereditrios, quando seu sangue senhorial  nobre h j longo tempo,
   ou novos. Os novos podem ser totalmente novos, como foi Milo com
Francisco Sforza, ou o so como membros acrescidos ao Estado hereditrio
do prncipe que os adquire, como  o reino de Npoles em relao ao rei
 da Espanha. Estes domnios assim obtidos esto acostumados, ou a viver
 submetidos a um prncipe, ou a ser livres, sendo adquiridos com tropas
  de outrem ou com as prprias, bem como pela fortuna ou por virtude.
                                    
                                    
                                    
                            DOS PRINCIPADOS
                                    
                           (De Principatibus)
                                    
                              CAPTULO II
                                    
                      DOS PRINCIPADOS HEREDITRIOS
                                    
                    (DE PRINCIPATIBUS HEREDITARIIS)
                                    
                                    
                                    
  No cogitarei aqui das repblicas porque delas tratei longamente em
outra oportunidade. Voltarei minha ateno somente para os principados,
irei delineando os princpios descritos e discutirei como devem ser eles
 governados e mantidos. Digo, pois, que para a preservao dos Estados
 hereditrios e afeioados  linhagem de seu prncipe, as dificuldades
    so assaz menores que nos novos, pois  bastante no preterir os
costumes dos antepassados e, depois, contemporizar com os acontecimentos
    fortuitos, de forma que, se tal prncipe for dotado de ordinria
capacidade sempre se manter no poder, a menos que uma extraordinria e
excessiva fora dele venha a priv-lo; e, uma vez dele destitudo, ainda
          que temvel seja o usurpador, volta a conquist-lo.
                                    
Ns temos na Itlia, como exemplo, o Duque de Ferrara que no cedeu aos
 assaltos dos venezianos em 1484 nem aos do Papa Jlio em 1510, apenas
   por ser antigo naquele domnio. Na verdade, o prncipe natural tem
 menores razes e menos necessidade de ofender: donde se conclui dever
ser mais amado e, se no se faz odiar por desbragados vcios,  lgico e
   natural seja benquisto de todos. E na antigidade e continuao do
 exerccio do poder, apagam-se as lembranas e as causas das inovaes,
 porque uma mudana sempre deixa lanada a base para a ereo de outra.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO III
                                    
                         DOS PRINCIPADOS MISTOS
                                    
                       (DE PRINCIPATIBUS MIXTIS)
                                    
                                    
                                    
  Mas  nos principados novos que residem as dificuldades. Em primeiro
lugar, se no  totalmente novo mas sim como membro anexado a um Estado
  hereditrio (que, em seu conjunto, pode chamar-se "quase misto"), as
   suas variaes resultam principalmente de uma natural dificuldade
inerente a todos os principados novos:  que os homens, com satisfao,
 mudam de senhor pensando melhorar e esta crena faz com que lancem mo
 de armas contra o senhor atual, no que se enganam porque, pela prpria
experincia, percebem mais tarde ter piorado a situao. Isso depende de
  uma outra necessidade natural e ordinria, a qual faz com que o novo
prncipe sempre precise ofender os novos sditos com seus soldados e com
outras infinitas injrias que se lanam sobre a recente conquista; dessa
  forma, tens como inimigos todos aqueles que ofendeste com a ocupao
daquele principado e no podes manter como amigos os que te puseram ali,
 por no poderes satisfaz-los pela forma por que tinham imaginado, nem
  aplicar-lhes corretivos violentos uma vez que ests a eles obrigado;
porque sempre, mesmo que fortssimo em exrcitos, tem-se necessidade do
apoio dos habitantes para penetrar numa provncia. Foi por essas razes
 que Lus XII, rei de Frana, ocupou Milo rapidamente e logo depois o
 perdeu, para tanto bastando inicialmente as foras de Ludovico, porque
aquelas populaes que lhe haviam aberto as portas, reconhecendo o erro
de seu pensar anterior e descrentes daquele bem-estar futuro que haviam
imaginado, no mais podiam suportar os dissabores ocasionados pelo novo
                               prncipe.
                                    
  bem verdade que, reconquistando posteriormente as regies rebeladas,
mais dificilmente se as perdem, eis que o senhor, em razo da rebelio,
  menos vacilante em assegurar-se da punio daqueles que lhe faltaram
 com a lealdade, em investigar os suspeitos e em reparar os pontos mais
  fracos. Assim sendo, se para que a Frana viesse a perder Milo pela
  primeira vez foi suficiente um Duque Ludovico que fizesse motins nos
seus limites, j para perd-lo pela segunda vez foi preciso que tivesse
   contra si o mundo todo e que seus exrcitos fossem desbaratados ou
expulsos da Itlia, o que resultou das razes logo acima apontadas. No
 obstante, tanto na primeira como na segunda vez, Milo foi-lhe tomado.
                                    
As razes gerais da primeira foram expostas; resta agora falar sobre as
 da segunda vez e ver de que remdios dispunha a Frana e de que meios
 poder valer-se quem venha a encontrar-se em circunstncias tais, para
  poder manter-se na posse da conquista melhor do que o fez esse pas.
                                    
 Digo, consequentemente, que estes Estados conquistados e anexados a um
  Estado antigo, ou so da mesma provncia e da mesma lngua, ou no o
so: Quando o sejam,  sumamente fcil mant-los sujeitos, mxime quando
     no estejam habituados a viver em liberdade, e para domin-los
seguramente ser bastante ter-se extinguido a estirpe do prncipe que os
    governava, porque nas outras coisas, conservando-se suas velhas
  condies e no existindo alterao de costumes, os homens passam a
    viver tranqilamente, como se viu ter ocorrido com a Borgonha, a
 Bretanha, a Gasconha e a Normandia que por tanto tempo estiveram com a
Frana, isto a despeito da relativa diversidade de lnguas, mas graas 
   semelhana de costumes facilmente se acomodaram entre eles. E quem
conquista, querendo conserv-los, deve adotar duas medidas: a primeira,
   fazer com que a linhagem do antigo prncipe seja extinta; a outra,
 aquela de no alterar nem as suas leis nem os impostos; por tal forma,
  dentro de mui curto lapso de tempo, o territrio conquistado passa a
           constituir um corpo todo com o principado antigo.
                                    
    Mas, quando se conquistam territrios numa provncia com lngua,
 costumes e leis diferentes, aqui surgem as dificuldades e  necessrio
 haver muito boa sorte e habilidade para mant-los. E um dos maiores e
  mais eficientes remdios seria aquele do conquistador ir habit-los.
   Isto tornaria mais segura e mais duradoura a posse adquirida, como
ocorreu com o Turco da Grcia, que a despeito de ter observado todas as
leis locais, no teria conservado esse territrio se para a no tivesse
 se transferido. Isso porque, estando no local, pode-se ver nascerem as
  desordens e, rapidamente, podem ser elas reprimidas; a no estando,
 delas somente se tem notcia quando j alastradas e no mais passveis
  de soluo. Alm disso, a provncia conquistada no  saqueada pelos
    lugar-tenentes; os sditos ficam satisfeitos porque o recurso ao
    prncipe se torna mais fcil, donde tm mais razes para am-lo,
querendo ser bons, e para tem-lo, caso queiram agir por forma diversa.
  Quem do exterior desejar assaltar aquele Estado, por ele ter maior
 respeito; donde, habitando-o, o prncipe somente com muita dificuldade
                         poder vir a perd-lo.
                                    
 Outro remdio eficaz  instalar colnias num ou dois pontos, que sejam
como grilhes postos quele Estado, eis que  necessrio ou fazer tal ou
  a manter muita tropa. Com as colnias no se despende muito e, sem
  grande custo, podem ser instaladas e mantidas, sendo que sua criao
  prejudica somente queles de quem se tomam os campos e as casas para
ced-los aos novos habitantes, os quais constituem uma parcela mnima do
 Estado conquistado. Ainda, os assim prejudicados, ficando dispersos e
pobres, no podem causar dano algum, enquanto que os no lesados ficam 
   parte, amedrontados, devendo aquietar-se ao pensamento de que no
 podero errar para que a eles no ocorra o mesmo que aconteceu queles
    que foram espoliados. Concluo dizendo que estas colnias no so
  onerosas, so mais fiis, ofendem menos e os prejudicados no podem
 causar mal, tornados pobres e dispersos como j foi dito. Por onde se
depreende que os homens devem ser acarinhados ou eliminados, pois se se
 vingam das pequenas ofensas, das graves no podem faz-lo; da decorre
  que a ofensa que se faz ao homem deve ser tal que no se possa temer
vingana. Mas mantendo, em lugar de colnias, foras militares, gasta-se
  muito mais, absorvida toda a arrecadao daquele Estado na guarda a
  destacada; dessa forma, a conquista transforma-se em perda e ofende
    muito mais por que danifica todo aquele pas com as mudanas do
alojamento do exrcito, incmodo esse que todos sentem e que transforma
   cada habitante em inimigo: e so inimigos que podem causar dano ao
 conquistador, pois, vencidos, ficam em sua prpria casa. Sob qualquer
 ponto de vista essa guarda armada  intil, ao passo que a criao de
                            colnias  til.
                                    
Deve, ainda, quem se encontre  frente de uma provncia diferente, como
   foi dito, tornar-se chefe e defensor dos menos fortes, tratando de
enfraquecer os poderosos e cuidando que em hiptese alguma a penetre um
forasteiro to forte quanto ele. E sempre surgir quem seja chamado por
  aqueles que na provncia se sintam descontentes, seja por excessiva
  ambio, seja por medo, como viu-se terem os etlios introduzido na
    Grcia os romanos que, alis, em todas as outras provncias que
 conquistaram, fizeram-no auxiliados pelos respectivos habitantes. E a
 ordem das coisas  que, to logo um estrangeiro poderoso penetre numa
  provncia, todos aqueles que nela so mais fracos a ele dem adeso,
  movidos pela inveja contra quem se tornou poderoso sobre eles; tanto
 assim  que em relao a estes no se torna necessrio grande trabalho
  para obter seu apoio, pois logo todos eles, voluntariamente, formam
 bloco com o seu Estado conquistado. Apenas deve haver o cuidado de no
    permitir adquiram eles muito poder e muita autoridade, podendo o
  conquistador, facilmente, com suas foras e com o apoio dos mesmos,
abater aqueles que ainda estejam fortes, para tornar-se senhor absoluto
 daquela provncia. E quem no encaminhar satisfatoriamente esta parte,
    cedo perder a sua conquista e, enquanto puder conserv-la, ter
                infinitos aborrecimentos e dificuldades.
                                    
Os romanos, nas provncias de que se assenhorearam, observaram bem estes
      pontos: fundaram colnias, conquistaram a amizade dos menos
 prestigiosos, sem lhes aumentar o poder, abateram os mais fortes e no
deixaram que os estrangeiros poderosos adquirissem conceito. Quero tomar
   como exemplo apenas a provncia da Grcia. Os aqueus e os etlios
tornaram-se amigos dos romanos; foi abatido o reino dos macednios e da
 foi expulso Antoco; mas nem os mritos dos aqueus e dos etlios lhes
 asseguraram permisso para conquistar algum Estado, nem a persuaso de
Felipe logrou fazer com que os romanos se tornassem seus amigos e no o
diminussem, nem o poder de Antoco conseguiu fazer com que os mesmos o
 autorizassem a manter seu domnio naquela provncia. Isso tudo ocorreu
    porque os romanos fizeram nesses casos aquilo que todo prncipe
    inteligente deve fazer: no somente vigiar e ter cuidado com as
desordens presentes, como tambm com as futuras, evitando-as com toda a
    cautela porque, previstas a tempo, facilmente se lhes pode opor
corretivo; mas, esperando que se avizinhem, o remdio no chega a tempo,
   e o mal j ento se tornou incurvel. Ocorre aqui como no caso do
tuberculoso, segundo os mdicos: no princpio  fcil a cura e difcil o
   diagnstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade no foi
 conhecida nem tratada, torna-se fcil o diagnstico e difcil a cura.
   Assim tambm ocorre nos assuntos do Estado porque, conhecendo com
 antecedncia os males que o atingem (o que no  dado seno a um homem
  prudente), a cura  rpida; mas quando, por no se os ter conhecido
logo, vm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos,
                        no mais existe remdio.
                                    
  Contudo, os romanos, prevendo as perturbaes, sempre as tolheram e
  jamais, para fugir  guerra, permitiram que as mesmas seguissem seu
   curso, pois sabiam que a guerra no se evita mas apenas se adia em
benefcio dos outros; por isso mesmo, promoveram a guerra contra Felipe
   e Antoco na Grcia, para evitar terem de faz-la na Itlia e, no
entanto, podiam ter evitado a luta naquele momento, se o quisessem. Nem
 em momento algum lhes agradou aquilo que todos os dias est nos lbios
    dos entendidos de nosso tempo, o desejo de gozar do benefcio da
  contemporizao, mas sim apenas aquilo que resultava de sua prpria
virtude e prudncia: na verdade o tempo lana  frente todas as coisas e
             pode transformar o bem em mal e o mal em bem.
                                    
  Mas voltemos  Frana e examinemos se ela fez alguma das coisas que
expomos, falando eu de Lus e no de Carlos porque foi daquele que, por
   ter mantido mais prolongado domnio na Itlia, melhor se viram os
  progressos: e vereis como ele fez o contrrio que se deve fazer para
             conservar um Estado numa provncia diferente.
                                    
 O Rei Lus foi conduzido  Itlia pela ambio dos venezianos que, por
 tal meio, quiseram ganhar o Estado da Lombardia, No desejo censurar o
partido tomado pelo rei; porque, querendo comear a pr um p na Itlia
 e no tendo amigos nesta provncia, sendo-lhe, ao contrrio, fechadas
todas as portas em razo do comportamento do Rei Carlos, foi obrigado a
servir-se daquelas amizades com que podia contar: e ter-lhe-ia resultado
 bem escolhido esse partido, se nos outros manejos no tivesse cometido
erro algum. Conquistada, pois, a Lombardia, o rei readquiriu prontamente
   aquela reputao que Carlos perdera: Gnova cedeu; os florentinos
   tornaram-se seus amigos; o marqus de Mantua, o duque de Ferrara,
   Bentivoglio, a senhora de Forli, o senhor de Faenza, de Pesaro, de
Rimini, de Camerino, de Piombino, os Luqueses, os Pisanos e os Sieneses,
todos foram ao seu encontro para tornarem-se seus amigos. Os venezianos
 puderam considerar ento a temeridade da resoluo que haviam adotado,
 pois que, para conquistar dois tratos de terra na Lombardia, fizeram o
             rei tornar-se senhor de dois teros da Itlia.
                                    
   Considere-se agora com quanta facilidade podia o rei manter a sua
   reputao na Itlia se, observadas as normas j referidas, tivesse
conservado seguros e defendidos todos aqueles seus amigos que, por serem
 em grande nmero, fracos e medrosos uns em relao  Igreja os outros
  face aos venezianos, precisavam sempre estar com ele; por meio deles
     poderia, facilmente, ter-se assegurado contra os que ainda se
                          conservavam fortes.
                                    
Mas ele, apenas chegado a Milo, fez o contrrio, dando auxilio ao papa
    Alexandre para que ocupasse a Romanha. Nem percebeu que com essa
deliberao enfraquecia a si prprio, afastando os amigos e aqueles que
    se lhe tinham lanado aos braos, enquanto engrandecia a Igreja
acrescentando ao poder espiritual, que lhe d tanta autoridade, tamanha
   fora temporal. Cometido um primeiro erro, foi compelido a seguir
praticando outros at que, para pr fim  ambio de Alexandre e evitar
   que este se tornasse senhor da Toscana, teve de vir pessoalmente 
 Itlia. No lhe bastou ter tornado grande a Igreja e perder os amigos;
  por querer o reino de Npoles, dividiu-o com o rei da Espanha; sendo
  primeiro o rbitro da Itlia, a colocou um companheiro para que os
 ambiciosos daquela provncia e os descontentes com ele mesmo tivessem
   onde recorrer e, em vez de deixar naquele reino um soberano a ele
   sujeito, tirou-o para, em seu lugar, colocar um outro que pudesse
                            expuls-lo dali.
                                    
  coisa muito natural e comum o desejo de conquistar e, sempre, quando
   os homens podem faz-lo, sero louvados ou, pelo menos, no sero
    censurados; mas quando no tm possibilidade e querem faz-lo de
qualquer maneira, aqui est o erro e, consequentemente, a censura. Se a
Frana, pois, podia assaltar Npoles com suas foras, devia faz-lo; se
 no podia, no devia dividir esse reino. E se a diviso que fez com os
venezianas sobre a Lombardia mereceu desculpa por ter com ela firmado p
  na Itlia, aquela merece censura em razo de no ser justificada por
                           essa necessidade.
                                    
Tinha, pois, Lus, cometido estes cinco erros: eliminou os menos fortes;
aumentou na Itlia o prestgio de um poderoso; a colocou um estrangeiro
    poderosssimo; no veio habitar no pas; no instalou colnias.
                                    
 Estes erros, contudo, poderiam no ter causado dano enquanto vivo ele
fosse, se no houvesse sido cometido o sexto erro, tomar os territrios
 aos venezianos. Na verdade, se no tivesse tornado grande a Igreja nem
    introduzido a Espanha na Itlia, seria bem razovel e necessrio
enfraquec-los; mas, tomados que foram aqueles partidos, nunca deveriam
  consentir na runa dos mesmos, pois, sendo poderosos, teriam sempre
 mantido aquelas  distncia da Lombardia, e isso porque os venezianos
 jamais iriam consentir em qualquer manobra contra esse Estado, a menos
  que eles se tornassem os senhores, da mesma forma que os outros no
iriam querer tom-lo  Frana para d-lo aos venezianos, ao mesmo tempo
que lhes faltava coragem para entrar em luta com estes e com a Frana. E
 se algum dissesse: o Rei Lus cedeu a Romanha a Alexandre e o Reino 
      Espanha para fugir a uma guerra - respondo com as razes j
  anteriormente expostas de que - nunca se deve deixar prosseguir uma
   crise para escapar a uma guerra, mesmo porque dela no se foge mas
apenas se adia para desvantagem prpria. E se alguns outros alegassem a
palavra que o rei havia dado ao Papa, qual a de realizar para ele aquela
     conquista em troca da dissoluo de seu casamento e do chapu
cardinalcio para o arcebispo de Ruo - respondo com o que mais adiante
 se dir acerca da palavra dos prncipes e de como se a deve respeitar.
                                    
 Perdeu, pois, o Rei Lus a Lombardia por no ter respeitado nenhum dos
  princpios observados por outros que dominaram provncias e quiseram
    conserv-las. No h aqui milagre algum, mas  sim muito comum e
 razovel. E deste assunto falei em Nantes ao arcebispo de Ruo, quando
   Valentino, assim popularmente chamado Csar Brgia, filho do Papa
 Alexandre, ocupava a Romanha: porque, dizendo-me o cardeal de Ruo que
os italianos no entendiam de guerra, retruquei-lhe que os franceses no
  entendiam do Estado, pois que, se de tal compreendessem, no teriam
deixado que a Igreja alcanasse tanta grandeza. E por experincia viu-se
que a grandeza da Igreja e da Espanha na Itlia foi causada pela Frana,
              e a runa desta foi acarretada por aquelas.
                                    
  Disso se extrai uma regra geral que nunca ou raramente falha: quem 
causa do poderio de algum arruina-se, por que esse poder resulta ou da
  astcia ou da fora e ambas so suspeitas para aquele que se tornou
                               poderoso.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO IV
                                    
 POR QUE O REINO DE DARIO, OCUPADO POR ALEXANDRE, NO SE REBELOU CONTRA
                   SEUS SUCESSORES APS A MORTE DESTE
                                    
 (CUR DARII REGNUM QUOD ALEXANDER OCCUPAVERAT A SUCCESSORIBUS SUIS POST
                     ALEXANDRI MORTEM NON DEFECIT)
                                    
                                    
                                    
     Consideradas as dificuldades que devem ser enfrentadas para a
 conservao de um Estado recm-conquistado, algum poderia ficar pasmo
ante o fato de que, tendo se tornado senhor da sia em poucos anos, no
 apenas havia terminado sua ocupao Alexandre Magno veio a morrer e, a
despeito de parecer razovel que todo aquele Estado devesse rebelar-se,
    seus sucessores o conservaram e para tanto no encontraram outra
  dificuldade seno aquela que, por ambio pessoal, nasceu entre eles
mesmos. - Argumento: os principados de que se conserva memria, tm sido
 governados de duas formas diversas: ou por um prncipe, sendo todos os
 demais servos que, como ministros por graa e concesso sua, ajudam a
 governar o Estado, ou por um prncipe e por bares, os quais, no por
   graa do senhor mas por antigidade de sangue, tm aquele grau de
ministros. Estes bares tm Estados e sditos prprios que os reconhecem
   por senhores e a eles dedicam natural afeio. Os Estados que so
 governados por um prncipe e servos, tm aquele com maior autoridade,
porque em toda a sua provncia no existe algum reconhecido como chefe
seno ele, e se os sditos obedecem a algum outro, fazem-no em razo de
   sua posio de ministro e oficial, no lhe dedicando o menor amor.
                                    
 Os exemplos dessas duas espcies de governo so, nos nossos tempos, o
  Turco e o rei de Frana. Toda a monarquia do Turco  dirigida por um
 senhor: os outros so seus servos; dividindo o seu reino em sandjaks,
 para a manda diversos administradores e os muda e varia de acordo com
sua prpria vontade. Mas o rei de Frana est em meio a uma multido de
   antigos senhores que, nessa qualidade, so reconhecidos pelos seus
 sditos e por eles amados: tm as suas preeminncias e no pode o rei
  priv-los das mesmas sem perigo para si prprio. Quem tiver em mira,
     pois, um e outro desses governos, encontrar dificuldades para
conquistar o Estado Turco, mas, vencido que seja este, encontrar grande
 facilidade para conserv-lo, Ao contrrio, encontrar-se- em todos os
  sentidos maior facilidade para ocupar o Estado de Frana, mas grande
                       dificuldade para mant-lo.
                                    
  As razes da dificuldade em ocupar o reino do Turco decorrem de no
 poder o atacante ser chamado por prncipes daquele reino, nem esperar,
 com a rebelio dos que rodeiam o soberano, poder ter facilitada a sua
   empresa:  o que resulta das razes referidas. Porque, sendo todos
   escravos e obrigados, so mais dificilmente corruptveis e, quando
 fossem subornados, pouco de til poder-se-ia esperar, visto no serem
     eles capazes de arrastar o povo atrs de si, pelos motivos j
 mencionados. Logo, se algum assaltar o Estado Turco, deve pensar que
   ir encontr-lo todo unido, convindo contar mais com suas prprias
foras que com as desordens dos outros. Mas, vencido que seja e uma vez
     desbaratado em batalha campal de modo que no possa refazer os
exrcitos, no se deve recear outra coisa seno a dinastia do prncipe;
uma vez extinta esta, ningum mais resta que deva ser temido, j que os
  demais no gozam de prestgio junto ao povo; e como o vencedor deste
  nada podia esperar antes da vitria, depois dela no deve rece-lo.
                                    
 O contrrio ocorre nos reinos como o de Frana, por que com facilidade
  podes invadi-lo em obtendo o apoio de algum baro do reino, pois que
   sempre se encontram descontentes e os que desejam fazer inovaes.
  Estes, pelas razes referidas, podem abrir o acesso quele Estado e
facilitar a vitria. Esta, depois, se desejares manter-te, arrasta atrs
de si infinitas dificuldades, seja com aqueles que te ajudaram, seja com
 os que oprimiste. No  bastante extinguir a estirpe do prncipe, pois
permanecem aqueles senhores que se tornam chefes das novas revolues e,
no podendo nem content-los nem extermin-los, perde aquele Estado to
                       logo surja a oportunidade.
                                    
  Ora, se for considerado de que natureza era o governo de Dario, se o
 encontrar semelhante ao reino do Turco. Para Alexandre foi necessrio
primeiro encurral-lo e desbarat-lo em batalha campal sendo que, depois
  da vitria, estando morto Dario, aquele Estado tornou-se seguro para
Alexandre pelas razes acima expostas. Seus sucessores, se tivessem sido
  unidos, poderiam t-lo gozado tranqilamente, pois ali no surgiram
outros tumultos que no os por eles prprios provocados. Mas quanto aos
Estados organizados como o da Frana,  impossvel possu-los com tanta
    tranqilidade. Dessa circunstncia  que nasceram as freqentes
   rebelies da Espanha, da Frana e da Grcia contra os romanos; em
decorrncia do grande nmero de principados que havia naqueles Estados e
  por todo o tempo em que perdurou a sua memria, os romanos estiveram
   inseguros na posse daqueles domnios. Mas extinta a lembrana dos
 principados, com o poder e a constncia de sua autoridade, os romanos
 tornaram-se dominadores seguros. Puderam eles, tambm, combatendo mais
 tarde em lutas internas, arrastar cada faco, para o seu lado, parte
 daquelas provncias, segundo a autoridade que havia adquirido junto a
elas; e essas provncias, por no mais existir o sangue de seus antigos
 senhores, no reconheciam seno a soberania dos romanos. Consideradas,
   pois, todas estas coisas, ningum se maravilhar da facilidade que
Alexandre encontrou para conservar o Estado da sia, e das dificuldades
  que foram arrostadas pelos outros para manterem o conquistado, como
Pirro e muitos outros. Isso no resultou da muita ou da pouca virtude do
   vencedor, mas sim da diversidade de forma do objeto da conquista.
                                    
                                    
                                    
                               CAPTULO V
                                    
 DE QUE MODO SE DEVAM GOVERNAR AS CIDADES OU PRINCIPADOS QUE, ANTES DE
            SEREM OCUPADOS, VIVIAM COM AS SUAS PRPRIAS LEIS
                                    
  (QUOMODO ADMINISTRANDAE SUNT CIVITATES VEL PRINCIPATUS, QUI ANTEQUAM
                  OCCUPARENTUR, SUIS LEGIBUS VIVEBANT)
                                    
                                    
                                    
     Quando aqueles Estados que se conquistam, como foi dito, esto
 habituados a viver com suas prprias leis e em liberdade, existem trs
 modos de conserv-los: o primeiro, arruin-los; o outro, ir habit-los
pessoalmente; o terceiro, deix-los viver com suas leis, arrecadando um
tributo e criando em seu interior um governo de poucos, que se conservam
amigos, porque, sendo esse governo criado por aquele prncipe, sabe que
no pode permanecer sem sua amizade e seu poder, e h que fazer tudo por
  conserv-los. Querendo preservar uma cidade habituada a viver livre,
mais facilmente que por qualquer outro modo se a conserva por intermdio
                           de seus cidados.
                                    
    Como exemplos, existem os espartanos e os romanos. Os espartanos
conservaram Atenas e Tebas, nelas criando um governo de poucos; todavia,
   perderam-nas. Os romanos, para manterem Cpua, Cartago e Numncia,
destruram-nas e no as perderam; quiseram conservar a Grcia quase como
 o fizeram os espartanos, tornando-a livre e deixando-lhe suas prprias
   leis e no o conseguiram: em razo disso, para conserv-la, foram
         obrigados a destruir muitas cidades daquela provncia.
                                    
      que, em verdade, no existe modo seguro para conservar tais
  conquistas, seno a destruio. E quem se torne senhor de uma cidade
acostumada a viver livre e no a destrua, espere ser destrudo por ela,
 porque a mesma sempre encontra, para apoio de sua rebelio, o nome da
liberdade e o de suas antigas instituies, jamais esquecidas seja pelo
decurso do tempo, seja por benefcios recebidos. Por quanto se faa e se
   proveja, se no se dissolvem ou desagregam os habitantes, eles no
esquecem aquele nome nem aquelas instituies, e logo, a cada incidente,
    a eles recorrem como fez Pisa cem anos aps estar submetida aos
                              florentinos.
                                    
Mas quando as cidades ou as provncias esto acostumadas a viver sob um
 prncipe, extinta a dinastia, sendo de um lado afeitas a obedecer e de
  outro no tendo o prncipe antigo, dificilmente chegam a acordo para
  escolha de um outro prncipe, no sabem, enfim, viver em liberdade:
     dessa forma, so mais lerdas para tomar das armas e, com maior
facilidade, pode um prncipe venc-las e delas apoderar-se. Contudo, nas
repblicas h mais vida, mais dio, mais desejo de vingana; no deixam
  nem podem deixar esmaecer a lembrana da antiga liberdade: assim, o
     caminho mais seguro  destru-las ou habit-las pessoalmente.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO VI
                                    
    DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS PRPRIAS E
                             VIRTUOSAMENTE
                                    
   (DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ARMIS PROPRIIS ET VIRTUTE ACQUIRUNTUR)
                                    
                                    
                                    
  No se admire algum se, na exposio que irei fazer a respeito dos
    principados completamente novos de prncipe e de Estado, apontar
 exemplos de grandes personagens; por que, palmilhando os homens, quase
sempre, as estradas batidas pelos outros, procedendo nas suas aes por
 imitaes, no sendo possvel seguir fielmente as trilhas alheias nem
alcanar a virtude do que se imita, deve um homem prudente seguir sempre
pelas sendas percorridas pelos que se tornaram grandes e imitar aqueles
que foram excelentes, isto para que, no sendo possvel chegar  virtude
 destes, pelo menos da venha a auferir algum proveito; deve fazer como
os arqueiros hbeis que, considerando muito distante o ponto que desejam
atingir e sabendo at onde vai a capacidade de seu arco, fazem mira bem
  mais alto que o local visado, no para alcanar com sua flecha tanta
 altura, mas para poder com o auxlio de to elevada mira atingir o seu
                                 alvo.
                                    
 Digo, pois, que no principado completamente novo, onde exista um novo
prncipe, encontra-se menor ou maior dificuldade para mant-lo, segundo
 seja mais ou menos virtuoso quem o conquiste. E porque o elevar-se de
particular a prncipe pressupe ou virtude ou boa sorte, parece que uma
 ou outra dessas duas razes mitigue em parte muitas dificuldades; no
obstante, tem-se observado, aquele que menos se apoiou na sorte reteve o
poder mais seguramente. Gera ainda facilidade o fato de, por no possuir
 outros Estados, ser o prncipe obrigado a vir habit-lo pessoalmente.
                                    
 Para reportar-me queles que pela sua prpria virtude e no pela sorte
  se tornarem prncipes, digo que os maiores so Moiss, Ciro, Rmulo,
 Teseu e outros tais. Se bem que de Moiss no se deva cogitar por ter
 sido ele mero executor daquilo que lhe era ordenado por Deus, contudo
   deve ser admirado somente por aquela graa que o tornava digno de
     conversar com o Senhor. Mas consideremos Ciro e os outros que
conquistaram ou fundaram reinos: achareis a todos admirveis. E se forem
   consideradas suas aes e ordens particulares, estas parecero no
   discrepantes daquelas de Moiss que teve to grande preceptor. E,
  examinando as aes e a vida dos mesmos, no se v que eles tivessem
   algo de sorte seno a ocasio, que lhes forneceu meios para poder
   adaptar as coisas da forma que melhor lhes aprouve; e, sem aquela
oportunidade, o seu valor pessoal ter-se-ia apagado e sem essa virtude a
                     ocasio teria surgido em vo.
                                    
  Era necessrio, pois, a Moiss, encontrar o povo de Israel no Egito,
    escravizado e oprimido pelos egpcios, a fim de que aquele, para
libertar-se da escravido, se dispusesse a segui-lo. Convinha que Rmulo
 no pudesse ser mantido em Alba, fosse exposto ao nascer, para que se
  tornasse rei de Roma e fundador daquela ptria. Era preciso que Ciro
    encontrasse os persas descontentes do imprio dos medas, e estes
  estivessem amolecidos e efeminados pela prolongada paz. No poderia
Teseu demonstrar sua virtude se no encontrasse os atenienses dispersos.
   Essas oportunidades por tanto, fizeram esses homens felizes, e sua
excelente capacidade fez com que aquela ocasio fosse conhecida de cada
um: em conseqncia, sua ptria foi nobilitada e tornou-se felicssima.
                                    
Os que, por suas virtudes, semelhantes s que aqueles tiveram, tornam-se
prncipes, conquistam o principado com dificuldade, mas com facilidade o
   conservam; e os obstculos que se lhes apresentam no conquistar o
principado, em parte nascem das novas disposies e sistemas de governo
 que so forados a introduzir para fundar o seu Estado e estabelecer a
  sua segurana. Deve-se considerar no haver coisa mais difcil para
cuidar, nem mais duvidosa a conseguir, nem mais perigosa de manejar, que
tornar-se chefe e introduzir novas ordens. Isso porque o introdutor tem
    por inimigos todos aqueles que obtinham vantagens com as velhas
instituies e encontra fracos defensores naqueles que das novas ordens
 se beneficiam. Esta fraqueza nasce, parte por medo dos adversrios que
ainda tm as leis conformes a seus interesses, parte pela incredulidade
 dos homens: estes, em verdade, no crem nas inovaes se no as vem
resultar de uma firme experincia. Donde decorre que a qualquer momento
 em que os inimigos tenham oportunidade de atacar, o fazem com calor de
sectrios, enquanto os outros defendem fracamente, de forma que ao lado
                      deles se corre srio perigo.
                                    
   necessrio, pois, querendo bem expor esta parte, examinar se esses
   inovadores se baseiam sobre foras suas prprias ou se dependem de
 outros, isto , se para levar avante sua obra  preciso que roguem, ou
se em realidade podem forar. No primeiro caso, sempre acabam mal e no
realizam coisa alguma; mas, quando dependem de si mesmos e podem forar,
   ento  que raras vezes perigam. Da resulta que todos os profetas
  armados venceram e os desarmados fracassaram. Porque, alm dos fatos
  apontados, a natureza dos povos  vria, sendo fcil persuadi-los de
urna coisa, mas difcil firm-los nessa persuaso. Convm, assim, estar
preparado para que, quando no acreditarem mais, se possa faz-los crer
                              pela fora.
                                    
 Moiss, Ciro, Teseu e Rmulo no teriam conseguido fazer observar por
 longo tempo as suas constituies se tivessem estado desarmados; como
 ocorreu nos nossos tempos a Frei Girolamo Savonarola que fracassou nas
suas reformas quando a multido comeou a nele no mais acreditar, e ele
 no dispunha de meios para manter firmes aqueles que haviam crido, nem
para fazer com que os descrentes passassem a crer. Por isso, tm grandes
  dificuldades no conduzir-se e todos os perigos esto no seu caminho,
convindo que os superem com o valor pessoal; mas superado que os tenham,
 quando comeam a ser venerados, extintos aqueles que tinham inveja de
       sua condio, ficam poderosos, seguros, honrados, felizes.
                                    
   A to altos exemplos, quero acrescentar um menor, mas que bem ter
 alguma relao com aqueles e que julgo suficiente para todos os outros
   semelhantes:  Hiero de Siracusa. Este, de particular, tornou-se
 prncipe de Siracusa; tambm ele, da sorte somente conheceu a ocasio
  porque, sendo os siracusanos oprimidos, o elegeram para seu capito,
donde mereceu ser feito prncipe. E foi de tanta virtude, mesmo na vida
privada, que quem escreveu a seu respeito, disse: quod nihil illi deerat
                      ad regnandum praeter regnum.
                                    
   Extinguiu a velha milcia, organizou a nova, abandonou as antigas
amizades, conquistou novas; e, como teve amizades e soldados seus, pode,
     sobre tais fundamentos, erigir as obras que desejou: tanto que
      custou-lhe muita fadiga para conquistar e pouca para manter.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO VII
                                    
   DOS PRINCIPADOS NOVOS QUE SE CONQUISTAM COM AS ARMAS E FORTUNA DOS
                                 OUTROS
                                    
   (DE PRINCIPATIBUS NOVIS QUI ALIENIS ARMIS ET FORTUNA ACQUIRUNTUR)
                                    
                                    
                                    
Aqueles que somente por fortuna se tornam de privados em prncipes, com
  pouca fadiga assim se transformam, mas s com muito esforo assim se
mantm: no encontram nenhuma dificuldade pelo caminho porque atingem o
 posto a vo; mas toda sorte de dificuldades nasce depois que a esto.
So aqueles aos quais  concedido um Estado, seja por dinheiro, seja por
  graa do concedente: como ocorreu a muitos na Grcia, nas cidades da
 Jnia e do Helesponto, onde foram feitos prncipes por Dario, a fim de
   que as conservassem para sua segurana e glria; como eram feitos,
ainda, aqueles imperadores que, por corrupo dos soldados, de privados
                    alcanavam o domnio do Imprio.
                                    
 Estes esto simplesmente submetidos  vontade e  fortuna de quem lhes
concedeu o Estado, que so duas coisas grandemente volveis e instveis:
e no sabem e no podem manter a sua posio. No sabem, porque, se no
so homens de grande engenho e virtude, no  razovel que, tendo vivido
 sempre em ambiente privado, saibam comandar; no podem, porque no tm
foras que lhes possam ser amigas e fiis. Ainda, os Estados que surgem
   rapidamente, como todas as demais coisas da natureza que nascem e
  crescem depressa, no podem ter razes e estruturao perfeitas, de
forma que a primeira adversidade os extingue; salvo se aqueles que, como
  foi dito, assim repentinamente se tornaram prncipes, forem de tanta
 virtude que saibam desde logo preparar-se para conservar aquilo que a
  fortuna lhes ps no regao, formando posteriormente as bases que os
           outros estabeleceram antes de se tornar prncipes.
                                    
  Destes dois citados modos de vir a ser prncipe, por virtude ou por
    fortuna, quero apontar dois exemplos ocorridos nos dias de nossa
  memria: estes so Francisco Sforza e Csar Brgia. Francisco, pelos
meios devidos e com grande virtude, de privado tornou-se duque de Milo;
  e aquilo que com mil esforos tinha conquistado, com pouco trabalho
     manteve. Por outro lado, Csar Brgia, pelo povo chamado Duque
  Valentino, adquiriu o Estado com a fortuna do pai e, juntamente com
 aquela, o perdeu; isso no obstante fossem por ele utilizados todos os
meios e feito tudo aquilo que devia ser efetivado por um homem prudente
e virtuoso, para lanar razes naqueles Estados que as armas e a fortuna
 de outrem lhe tinham concedido. Porque, como se disse acima, quem no
       lana os alicerces primeiro, com uma grande virtude poder
  estabelec-los depois, ainda que se faam com aborrecimentos para o
construtor e perigo para o edifcio. Se, pois, se considerarem todos os
  progressos do duque, ver-se- ter ele estabelecido grandes alicerces
para o futuro poderio, os quais no julgo suprfluo descrever, pois no
 saberia que melhores preceitos do que o exemplo de suas aes poderia
      indicar a um prncipe novo; e se as suas disposies no lhe
    aproveitaram, no foi por culpa sua, mas sim em resultado de uma
                   extraordinria e extrema m sorte.
                                    
 Tinha Alexandre VI, ao querer tornar grande o duque seu filho, muitas
   dificuldades presentes e futuras. Primeiro, no via meio de poder
     faz-lo senhor de algum Estado que no fosse Estado da Igreja;
   voltando-se para tomar um destes, sabia que o duque de Milo e os
venezianos no lho permitiriam, porque Faenza e Rimini estavam j sob a
    proteo dos venezianos. Via alm disto as armas da Itlia, e em
   especial aquelas de que poderia servir-se, encontrarem-se nas mos
daqueles que deviam temer a grandeza do Papa; no podia fiar-se, assim,
  pertencendo todas elas aos Orsni e Colonna e seus partidrios. Era,
   pois, necessrio que se perturbasse aquela organizao dos Estados
 italianos e fossem desarticulados os pertencentes queles, para poder
assenhorear-se seguramente de parte dos mesmos. Isso foi-lhe fcil, eis
 que encontrou os venezianos que, levados por outras causas, tinham se
  posto a fazer com que os franceses retornassem  Itlia, ao que no
 somente no se ops, como tambm tornou mais fcil com a dissoluo do
primeiro matrimnio do Rei Lus. Passou, portanto, o rei  Itlia com a
ajuda dos venezianos e consentimento de Alexandre: nem bem era chegado a
Milo, j o Papa dele obteve tropas para a conquista da Romanha, a qual
tornou-se possvel em razo da reputao do rei. Tendo ocupado a Romanha
    e batido os partidrios dos Colonna, o duque, querendo manter a
    conquista e avanar mais  frente, tinha duas coisas que tal lhe
  impediam: uma, as suas tropas que no lhe pareciam fiis, a outra, a
vontade da Frana; isto , temia o duque que lhe falhassem as tropas dos
  Orsni, das quais se valera, no s impedindo-o de conquistar, como
    tambm tomando-lhe o conquistado, bem como receava que o rei no
 deixasse de fazer-lhe o mesmo. Dos Orsni teve prova quando, depois da
   tomada de Faenza, assaltando Bolonha, os viu irem friamente a esse
assalto; acerca do rei, conheceu sua disposio quando, tomado o ducado
  de Urbino, atacou a Toscana; o rei f-lo desistir dessa campanha. Em
  conseqncia de tal, o duque deliberou no mais depender das armas e
 fortuna dos outros. Inicialmente, enfraqueceu as faces dos Orsni e
   dos Colonna em Roma; para tanto, atraiu para junto de si todos os
     adeptos dos mesmos, que fossem gentis-homens, fazendo-os seus
  gentis-homens, dando-lhes grandes estipndios e os honrando. Segundo
suas qualidades, com comandos e governos; de forma que, em poucos meses,
 a afeio que mantinham pelas faces foi extinta e voltou-se toda ela
para o duque. Depois, esperou a ocasio de eliminar os Orsni, dispersos
que j estavam os da casa Colonna, ocasio que lhe surgiu bem e que ele
melhor aproveitou; porque, tendo percebido os Orsni, tarde porm, que a
     grandeza do duque e da Igreja era a sua runa, organizaram uma
 conferncia em Magione, no Perugino. Dessa reunio nasceram a rebelio
 de Urbino, os tumultos da Romanha e infinitos perigos para o duque, o
           qual a todos superou com o auxlio dos franceses.
                                    
   E, readquirida a reputao, no confiando na Frana nem nas outras
   tropas estrangeiras, para no as ter fortalecidas, socorreu-se da
astcia. E to bem soube dissimular seus sentimentos, que os Orsni, por
intermdio do Senhor Paulo, reconciliaram-se com ele: para assegurar-se
melhor deste intermedirio, o duque no deixou de dispensar-lhe cortesia
de toda natureza, dando-lhe dinheiro, roupas e cavalos; tanto assim que
   a simplicidade dos Orsni levou-os a Sinigalia, s mos do duque.
Eliminados, pois, estes chefes, transformados os partidrios dos mesmos
   em amigos seus, tinha o duque lanado muito boas bases para o seu
poderio, possuindo toda a Romanha com o ducado de Urbino, parecendo-lhe,
    ainda, ter tornado amiga a Romanha e ganho para si todas aquelas
        populaes que comeavam a experimentar o seu bem-estar.
                                    
 E, porque esta parte  digna de ser conhecida e imitada pelos outros,
 no desejo omiti-la. Tomada que foi a Romanha, encontrando-a dirigida
por senhores impotentes, os quais mais depressa haviam espoliado os seus
  sditos do que os tinham governado, dando-lhes motivo de desunio ao
    invs de unio, tanto que aquela provncia era toda ela cheia de
latrocnios, de brigas e de tantas outras causas de insolncia, o duque
  julgou necessrio, para torn-la pacfica e obediente ao poder real,
dar-lhe bom governo. Por isso, a colocou Ramiro de Orco, homem cruel e
  solcito, ao qual deu os mais amplos poderes. Este, em pouco tempo,
tornou-a pacfica e unida, com mui grande reputao. Depois, entendeu o
  duque no ser necessria to excessiva autoridade, e isso porque no
duvidava pudesse vir a mesma a tornar-se odiosa; instalou um juzo civil
  no centro da provncia, com um presidente excelentssimo, onde cada
 cidade tinha o seu advogado. E porque sabia que os rigorismos passados
   tinham dado origem a algum dio, para limpar os espritos daquelas
 populaes e conquist-los completamente, quis mostrar que, se alguma
 crueldade havia ocorrido, no nascera dele, mas sim da triste e cruel
 natureza do ministro. E, servindo-se da oportunidade, fez colocarem-no
 uma manh, na praa pblica de Casena, cortado em dois pedaos, com um
pau e uma faca ensangentada ao lado. A ferocidade desse espetculo fez
    com que a populao ficasse ao mesmo tempo satisfeita e pasmada.
                                    
   Mas voltemos ao ponto de partida. Digo que, encontrando-se o duque
 bastante forte e relativamente garantido contra os perigos presentes,
   por ter-se armado a seu modo e ter em boa parte dissolvido aquelas
    tropas que, prximas, poderiam molest-lo, restava-lhe, querendo
  prosseguir com as conquistas, o temor ao rei de Frana, porque sabia
 como tal proceder no seria suportado pelo mesmo que, tarde, havia se
apercebido de seu erro. Comeou, por isso, a procurar novas amizades e a
 tergiversar com a Frana na incurso que os franceses fizeram no reino
de Npoles, contra os espanhis que assediavam Gaeta. A sua inteno era
   garantir-se contra eles, o que ter-lhe-ia surtido pronto efeito se
                   Alexandre tivesse continuado vivo.
                                    
          Esta foi a sua poltica quanto s coisas presentes.
                                    
  Mas, quanto s futuras, ele tinha a temer, inicialmente, que um novo
sucessor ao governo da Igreja no fosse seu amigo e procurasse tomar-lhe
   aquilo que Alexandre lhe dera; e pensou proceder por quatro modos:
    primeiro, extinguir as famlias daqueles senhores que ele tinha
espoliado, para tolher ao Papa aquela oportunidade; segundo, conquistar
   todos os gentis-homens de Roma, como foi dito, para poder com eles
  manter o Papa tolhido; terceiro, tornar o Colgio mais seu o quanto
 possvel; quarto, conquistar tanto poder antes que o pai morresse, que
   pudesse por si mesmo resistir a um primeiro impacto. Destas quatro
coisas,  morte de Alexandre ele havia realizado trs, estando a quarta
 quase terminada: porque dos senhores despojados ele matou quantos pode
   alcanar e pouqussimos se salvaram; tinha conseguido o apoio dos
gentis-homens romanos e no Colgio possua mui grande parte; e, quanto 
   nova conquista, resolvera tornar-se senhor da Toscana, possua j
         Pergia e Piombino e havia tomado a proteo de Pisa.
                                    
 Como no mais precisasse ter respeito  Frana (que o desmerecera por
 estarem j os franceses despojados do Reino pelos espanhis, de forma
  que cada um deles necessitava comprar a sua amizade), saltaria sobre
Pisa. Depois disso, Lucca e Ciena cederiam prontamente, parte por inveja
 dos florentinos, parte por medo; os florentinos no teriam remdio: o
    que, se tivesse acontecido (deveria ocorrer no mesmo ano em que
 Alexandre morreu), conferir-lhe-ia tantas foras e tanta reputao que
ele ter-se-ia mantido por si mesmo, no mais dependendo da fortuna e das
   foras dos outros, mas sim de sua prpria potncia e virtude. Mas
  Alexandre morreu cinco anos depois que ele comeara a desembainhar a
 espada. Deixou-o apenas com o Estado da Romanha consolidado, com todos
os outros no ar, em meio a dois fortssimos exrcitos inimigos e doente
                               de morte.
                                    
Havia no duque tanta bravura indmita e tanta virtude, conhecia to bem
  como se conquistam ou se perdem os homens e talmente slidos eram os
   alicerces que assim em to pouco tempo havia lanado, que, se no
  tivesse tido aqueles exrcitos sobre si, ou se estivesse so, teria
   vencido qualquer dificuldade. E que os seus alicerces fossem bons,
 viu-se: por que a Romanha esperou-o mais de um ms; em Roma, ainda que
 apenas meio vivo, esteve em segurana e, se bem os Baglioni, Vitelli e
Orsni viessem a Roma, nada puderam fazer contra ele; se no pode fazer
  papa quem queria, pelo menos evitou que o fosse quem ele no queria.
 Mas, se por ocasio da morte de Alexandre ele tivesse estado so, tudo
 lhe teria sido fcil. Disse-me ele, no dia em que foi eleito Jlio que
havia cogitado de tudo aquilo que podia acontecer morrendo o pai e para
tudo encontrara remdio, mas jamais havia pensado, alm da morte de seu
         pai, que ele mesmo, tambm, pudesse estar para morrer.
                                    
Relatadas, assim, todas as aes do duque, eu no saberia repreend-lo;
   antes penso que, como o fiz, deva ser proposto  imitao de todos
  aqueles que por fortuna e com as armas dos outros subiram ao poder.
 Porque, tendo grande nimo e alta inteno, ele no podia portar-se de
  outra for ma; aos seus desgnios, somente se opuseram a brevidade da
vida de Alexandre e a sua enfermidade, Quem, pois, julgar necessrio, no
 seu principado novo, assegurar-se contra os inimigos, adquirir amigos,
 vencer ou pela fora ou pela fraude, fazer-se amar e temer pelo povo,
 seguir e reverenciar pelos soldados, eliminar aqueles que podem ou tm
 razes para ofender, ordenar por novos modos as instituies antigas,
  ser severo e grato, magnnimo e liberal, extinguir a milcia infiel,
 criar uma nova, manter a amizade dos reis e dos prncipes, de modo que
  beneficiem de boa vontade ou ofendam com temor, no poder encontrar
             exemplos mais recentes que as aes do duque.
                                    
 Somente se pode acus-lo na criao de Jlio pontfice, onde m foi a
eleio; porque, como foi dito, no podendo fazer um papa de acordo com
seu desejo, ele podia impedir fosse feito quem no quisesse; e no devia
 jamais consentir no papado daqueles cardeais que tivessem sido por ele
  ofendidos, ou que, tornados papas, viessem a tem-lo. Na verdade, os
homens ofendem ou por medo ou por dio. Os que ele ofendera eram, entre
 outros, San Piero ad Vincula, Colonna, San Giorgio, Ascnio; todos os
 outros, tornados papas, tinham por que tem-lo, exceto o de Ruo e os
 espanhis; estes, por afinidade e por obrigaes, aquele pelo poder e
por ter ao seu lado o reino da Frana. Conseqentemente, o duque, antes
 de tudo, devia criar para um espanhol e, no podendo, devia consentir
 que fosse eleito o cardeal de Ruo e no o de San Piero ad Vincula. E
  quem acreditar que nas grandes personagens os novos benefcios faam
   esquecer as velhas injrias, engana-se. Errou, pois, o duque nessa
       eleio, tornando-se ele mesmo a causa de sua runa final.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO VIII
                                    
           DOS QUE CHEGARAM AO PRINCIPADO POR MEIO DE CRIMES
                                    
           (DE HIS QUI PER SCELERA AD PRINCIPATUM PERVENERE)
                                    
                                    
                                    
 Mas, porque pode-se tornar prncipe ainda por dois modos que no podem
ser atribudos totalmente  fortuna ou  virtude, no me parece acertado
p-los de parte, ainda que de um deles se possa mais amplamente cogitar
   em falando das repblicas. Estes so, ou quando por qualquer meio
   criminoso e nefrio se ascende ao principado, ou quando um cidado
privado torna-se prncipe de sua ptria pelo favor de seus concidados.
E, falando do primeiro modo, apontarei dois exemplos, um antigo e outro
   atual, sem entrar, contudo, no mrito desta parte, pois penso seja
        suficiente, a quem de tal necessitar, apenas imit-los.
                                    
  Agtocles siciliano, no s de privada mas tambm de nfima e abjeta
condio, tornou-se rei de Siracusa. Filho de um oleiro, teve sempre, no
decorrer de sua juventude, vida celerada; todavia, acompanhou seus atos
 delituosos de tanto vigor de nimo e de corpo que, tendo ingressado na
 milcia, em razo de atos de maldade, chegou a ser pretor de Siracusa.
  Uma vez investido nesse posto, tendo deliberado tornar-se prncipe e
 manter pela violncia e sem favor dos outros aquilo que por acordo de
 todos lhe tinha sido concedido, depois de acerca desse seu desejo ter
 estabelecido acordo com Amilcar cartagins, que se encontrava em ao
 com os seus exrcitos na Sicilia, reuniu certa manh o povo e o senado
 de Siracusa como se tivesse de deliberar sobre assuntos pertinentes 
Repblica e, a um sinal combinado, fez que seus soldados matassem todos
os senadores e os mais ricos da cidade; mortos estes, ocupou e manteve o
principado daquela cidade sem qualquer controvrsia civil. E, se bem por
   duas vezes os cartagineses tivessem com ele rompido e estabelecido
  assdio, no s pode defender a sua cidade como ainda, tendo deixado
 parte de sua gente na defesa contra o cerco, com o restante assaltou a
     frica e em breve tempo libertou Siracusa do stio levando os
   cartagineses a extrema dificuldade: tiveram de com ele estabelecer
 acordo e contentar-se com as possesses da frica, deixando a Siclia
                            para Agtocles.
                                    
 Quem considere, pois, as aes e a vida desse prncipe, no encontrar
    coisa, ou pouca achar, que possa atribuir  fortuna: suas aes
   resultaram, como acima se disse, no do favor de algum mas de sua
 ascenso na milcia, obtida com mil aborrecimentos e perigos, que lhe
 permitiu alcanar o principado e, depois, mant-lo com tantas decises
 corajosas e arriscadas. No se pode, ainda, chamar virtude o matar os
    seus concidados, trair os amigos, ser sem f, sem piedade, sem
   religio; tais modos podem fazer conquistar poder, mas no glria.
Ademais, se se considerar a virtude de Agtocles no entrar e no sair dos
perigos e a grandeza de seu nimo no suportar e superar as adversidades,
no se achar por que deva ser ele julgado inferior a qualquer dos mais
 excelentes capites; contudo, sua exacerbada crueldade e desumanidade,
 com infinitas perversidades, no permitem seja ele celebrado entre os
   homens mais ilustres. No se pode, assim, atribuir  fortuna ou 
       virtude aquilo que sem uma e outra foi por ele conseguido.
                                    
  Nos nossos tempos, reinando Alexandre VI, Oliverotto de Fermo, tendo
 anos antes ficado rfo de pai, foi criado por um tio materno de nome
Giovanni Fogliani; nos primeiros anos de sua juventude, foi encaminhado
   vida militar sob o comando de Paulo Vitelli, a fim de que, tomado
 daquela disciplina, atingisse algum excelente posto da milcia. Morto
 Paulo, militou sob Vitellozzo, irmo daquele, e em muito pouco tempo,
por ser engenhoso, de fsico e nimo fortes, tornou-se o primeiro homem
de sua milcia. Mas, parecendo-lhe coisa servil o estar sob as ordens de
outrem, com a ajuda de alguns cidados de Fermo, aos quais era mais cara
 a servido que a liberdade de sua ptria, e com o favor de Vitellozzo,
pensou ocupar Fermo. E escreveu a Giovanni Fogliani dizendo que, por ter
estado muitos anos fora de casa, desejava ir visit-lo e  sua cidade e
   conhecer o seu patrimnio; e, como no tinha trabalhado seno para
conquistar honras, para que seus concidados vissem como no tinha gasto
o tempo em vo, queria chegar com pompa e acompanhado de cem cavalos de
amigos e servidores seus; pedia-lhe, pois, se servisse ordenar fosse ele
recebido pelos cidados de Fermo com todas as honras, o que no somente
 o dignificaria, mas tambm a Fogliani, dado haver sido seu discpulo.
                                    
  No deixou Giovanni de despender esforos em favor de seu sobrinho:
 tendo feito com que os moradores de Fermo o recebessem com honrarias,
 alojou-o em suas casas. A, passados alguns dias e pronto para ordenar
secretamente aquilo que era necessrio  sua futura perfdia, Oliverotto
 promoveu solenssimo banquete para o qual convidou Giovanni Fogliani e
todos os principais homens de Fermo. Consumadas que foram as iguarias e
  aps todos os demais entretenimentos usuais em semelhantes ocasies,
 Oliverotto, com habilidade, abordou certos assuntos graves, falando da
grandeza do Papa Alexandre, de seu filho Csar e dos empreendimentos dos
mesmos. Tendo Giovanni e os demais respondido a tais consideraes, ele,
 repentinamente, ergueu-se dizendo ser aquilo assunto para falar-se em
lugar mais secreto, retirando-se para um cmodo onde Giovanni e todos os
  outros foram ter com ele. Nem ainda tinham se assentado, de lugares
   ocultos saram soldados que mataram Giovanni e a todos os demais.
                                    
  Depois desse homicdio, Oliverotto montou a cavalo, correu a cidade
     acompanhado de seus homens e assediou em seu palcio o supremo
 magistrado; em conseqncia, por medo, foram obrigados a obedec-lo e
 formar um governo do qual ele se fez prncipe. E, mortos todos aqueles
   que, por descontentes, poderiam ofend-lo, fortaleceu-se com novas
   ordens civis e militares de forma que, no perodo de um ano em que
 reteve o principado, no somente esteve forte na cidade de Fermo, como
tambm se tornou causa de pavor para todas as populaes vizinhas. Teria
 sido difcil a sua destruio, como difcil foi a de Agtocles, se no
 tivesse sido enganado por Csar Brgia quando este, em Sinigalia, como
 j se disse, aprisionou os Orsni e os Vitelli. Ai, preso tambm ele,
 foi estrangulado juntamente com Vitellozzo, mestre de suas virtudes e
        suas perfdias, um ano aps haver cometido o parricdio.
                                    
 Poderia algum ficar em dvida sobre a razo por que Agtocles e algum
outro a ele semelhante, aps tantas traies e crueldades, puderam viver
 longamente, sem perigo, dentro de sua ptria e, ainda, defender-se dos
   inimigos externos sem que os seus concidados contra eles tivessem
  conspirado, tanto mais notando-se que muitos outros no conseguiram
  manter o Estado, mediante a crueldade, nos tempos pacficos e, muito
   menos, nos duvidosos tempos de guerra. Penso que isto resulte das
   crueldades serem mal ou bem usadas. Bem usadas pode-se dizer serem
 aquelas (se do mal for lcito falar bem) que se fazem instantaneamente
pela necessidade do firmar-se e, depois, nelas no se insiste mas sim se
   as transforma no mximo possvel de utilidade para os sditos; mal
  usadas so aquelas que, mesmo poucas a princpio, com o decorrer do
   tempo aumentam ao invs de se extinguirem. Aqueles que observam o
 primeiro modo de agir, podem remediar sua situao com apoio de Deus e
dos homens, como ocorreu com Agtocles; aos outros torna-se impossvel a
                         continuidade no poder.
                                    
  Por isso  de notar-se que, ao ocupar um Estado, deve o conquistador
exercer todas aquelas ofensas que se lhe tornem necessrias, fazendo-as
  todas a um tempo s para no precisar renov-las a cada dia e poder,
assim, dar segurana aos homens e conquist-los com benefcios, Quem age
diversamente, ou por timidez ou por mau conselho, tem sempre necessidade
 de conservar a faca na mo, no podendo nunca confiar em seus sditos,
 pois que estes nele tambm no podem ter confiana diante das novas e
 contnuas injrias. Portanto, as ofensas devem ser feitas todas de uma
 s vez, a fim de que, pouco degustadas, ofendam menos, ao passo que os
     benefcios devem ser feitos aos poucos, para que sejam melhor
 apreciados. Acima de tudo, um prncipe deve viver com seus sditos de
 modo que nenhum acidente, bom ou mau, o faa variar: porque, surgindo
  pelos tempos adversos a necessidade, no estars em tempo de fazer o
 mal, e o bem que tu fizeres no te ser til eis que, julgado forado,
                          no trar gratido.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO IX
                                    
                          DO PRINCIPADO CIVIL
                                    
                         (DE PRINCIPATU CIVILI)
                                    
                                    
                                    
Mas passando a outra parte, quando um cidado privado, no por perfdia
 ou outra intolervel violncia, porm com o favor de seus concidados,
 torna-se prncipe de sua ptria, o que se pode chamar principado civil
 (para tal se tornar, no  necessria muita virtude ou muita fortuna,
mas antes uma astcia afortunada) digo que se ascende a esse principado
ou com o favor do povo ou com aquele dos grandes. Porque em toda cidade
 se encontram estas duas tendncias diversas e isso resulta do fato de
  que o povo no quer ser mandado nem oprimido pelos poderosos e estes
 desejam governar e oprimir o povo:  destes dois anseios diversos que
 nasce nas cidades um dos trs efeitos: ou principado, ou liberdade, ou
                               desordem.
                                    
 O principado  constitudo ou pelo povo ou pelos grandes, conforme uma
ou outra destas partes tenha oportunidade: vendo os grandes no lhes ser
  possvel resistir ao povo, comeam a emprestar prestgio a um dentre
 eles e o fazem prncipe para poderem, sob sua sombra, dar expanso ao
  seu apetite; o povo, tambm, vendo no poder resistir aos poderosos,
volta a estima a um cidado e o faz prncipe para estar defendido com a
 autoridade do mesmo. O que chega ao principado com a ajuda dos grandes
se mantm com mais dificuldade daquele que ascende ao posto com o apoio
 do povo, pois se encontra prncipe com muitos ao redor a lhe parecerem
    seus iguais e, por isso, no pode nem governar nem manobrar como
                               entender.
                                    
 Mas aquele que chega ao principado com o favor popular, a se encontra
s e ao seu derredor no tem ningum ou so pouqussimos que no estejam
  preparados para obedecer. Alm disso, sem injria aos outros, no se
 pode honestamente satisfazer os grandes, mas sim pode-se fazer bem ao
  povo, eis que o objetivo deste  mais honesto daquele dos poderosos,
  querendo estes oprimir enquanto aquele apenas quer no ser oprimido.
Contra a inimizade do povo um prncipe jamais pode estar garantido, por
serem muitos; dos grandes, porm, pode se assegurar porque so poucos. O
     pior que pode um prncipe esperar do povo hostil  ser por ele
abandonado; mas dos poderosos inimigos no s deve temer ser abandonado,
 como tambm deve recear que os mesmos se lhe voltem contra, pois que,
 havendo neles mais viso e maior astcia, contam sempre com tempo para
salvar-se e procuram adquirir prestgio junto quele que esperam venha a
 vencer. Ainda, o prncipe tem de viver, necessariamente, sempre com o
 mesmo povo, ao passo que pode bem viver sem aqueles mesmos poderosos,
     uma vez que pode fazer e desfazer a cada dia esse seu poderio,
         dando-lhes ou tirando-lhes reputao, a seu alvedrio.
                                    
  E, para melhor esclarecer esta parte, digo que os grandes devem ser
   considerados em dois grupos principais: ou procedem por forma a se
obrigarem totalmente  tua fortuna, ou no. Os que se obrigam e no so
 rapaces, devem ser considerados e amados. Os que no se obrigam devem
  ser encarados de dois modos: se fazem isso por pusilanimidade ou por
  natural defeito de esprito, devers servir-te deles, mxime que so
     bons conselheiros, porque na prosperidade isso te honrar e na
adversidade no precisars tem-los. Mas quando eles, ardilosamente, no
se obrigam por ambio,  sinal que pensam mais em si prprios do que em
ti: desses deve o prncipe guardar-se temendo-os como se fossem inimigos
   declarados, porque sempre, na adversidade, ajudaro a arruin-lo.
                                    
   Deve, pois, algum que se torne prncipe mediante o favor do povo,
 conserv-lo amigo, o que se lhe torna fcil, uma vez que no pede ele
   seno no ser oprimido. Mas quem se torne prncipe pelo favor dos
  grandes, contra o povo, deve antes de mais nada procurar ganhar este
para si, o que se lhe torna fcil quando assume a proteo do mesmo. E,
por que os homens, quando recebem o bem de quem esperavam somente o mal,
 se obrigam mais ao seu benfeitor, torna-se o povo desde logo mais seu
 amigo do que se tivesse sido por ele levado ao principado. O prncipe
 pode ganhar o povo por muitas maneiras que, por variarem de acordo com
as circunstncias, delas no se pode estabelecer regra certa, razo pela
                    qual das mesmas no cogitaremos.
                                    
Concluirei apenas que a um prncipe  necessrio ter o povo como amigo,
  pois, de outro modo, no ter possibilidades na adversidade. Nabis,
  prncipe dos espartanos, suportou o assdio de toda a Grcia e de um
exrcito romano coberto de vitrias, contra eles defendendo sua ptria e
 seu Estado; bastou-lhe apenas, sobrevindo o perigo, garantir-se contra
poucos, o que no seria suficiente se tivesse o povo como inimigo. E no
   surja algum para refutar esta minha opinio com aquele provrbio
   bastante conhecido de que, quem se apoia no povo firma-se na lama,
porque o mesmo  verdadeiro somente quando um cidado privado estabelece
 bases sobre o povo e imagina que o mesmo v libert-lo quando oprimido
pelos inimigos ou pelos magistrados; neste caso seria possvel sentir-se
 freqentemente enganado, como os Gracos em Roma e Messer Girgio Scali
  em Florena. Mas sendo um prncipe quem se apoie no povo, que possa
 mandar e seja um homem de coragem, que no esmorea nas adversidades,
   no carea de armas e mantenha com seu valor e suas determinaes
 alentado o povo todo, jamais se sentir por ele enganado e constatar
                   ter estabelecido bons fundamentos.
                                    
 Amide esses principados periclitam quando esto para passar da ordem
 civil para um governo absoluto, porque esses prncipes ou governam por
    si mesmos ou por intermdio dos magistrados. Neste ltimo caso a
      situao dos mesmos  mais fraca e perigosa, porque dependem
   completamente da vontade dos cidados prepostos  magistratura, os
quais, principalmente nos tempos adversos, podem tomar-lhes o Estado com
  grande facilidade, ou contrariando suas ordens ou no lhes prestando
 obedincia. E o prncipe no pode, nas ocasies de perigo, assumir em
     tempo a autoridade absoluta, porque os cidados e os sditos,
  acostumados a receber as ordens dos magistrados, no esto, naquelas
conjunturas, para obedecer s suas determinaes, havendo sempre, ainda,
 nos tempos duvidosos, carncia de pessoas nas quais ele possa confiar.
 Tal prncipe no pode fundar-se naquilo que observa nas pocas de paz,
quando os cidados precisam do Estado, porque ento todos correm, todos
prometem e cada um quer morrer por ele enquanto a morte est longe; mas
na adversidade, no momento em que o Estado tem necessidade dos cidados,
ento poucos so encontrados. E tanto mais  perigosa esta experincia,
  quanto no se a pode fazer seno uma vez. Contudo, um prncipe hbil
 deve pensar na maneira pela qual possa fazer com que os seus cidados
 sempre e em qualquer circunstncia tenham necessidade do Estado e dele
             mesmo, e estes, ento, sempre lhe sero fiis.
                                    
                                    
                                    
                               CAPTULO X
                                    
         COMO SE DEVEM MEDIR AS FORAS DE TODOS OS PRINCIPADOS
                                    
          (QUOMODO OMNIUM PRINCIPATUUM VIRES PERPENDI DEBEANT)
                                    
                                    
                                    
    Ao examinar as qualidades destes Estados, convm fazer uma outra
 considerao, isto , se um prncipe tem Estado to grande e forte que
   possa, precisando, manter-se por si mesmo, ou ento se tem sempre
necessidade da defesa de outrem. Para esclarecer melhor esta parte, digo
   julgar como podendo manter-se por si mesmos aqueles que podem, por
 abundncia de homens e de dinheiro, organizar um exrcito  altura do
    perigo a enfrentar e fazer face a uma batalha contra quem venha
assalt-lo, assim como julgo necessitados da defesa de outrem os que no
     podem defrontar o inimigo em campo aberto, mas so obrigados a
    refugiar-se atrs dos muros da cidade, guarnecendo-os. Quanto ao
     primeiro caso j foi falado e, futuramente, diremos o que for
 necessrio; relativamente ao segundo, no se pode aduzir algo mais do
 que exortar tais prncipes a fortificarem e a proverem sua cidade, no
    se preocupando com o territrio que a contorna. E quem tiver bem
fortificada sua cidade e, acerca dos outros assuntos, se tenha conduzido
 para com os sditos como acima foi dito e abaixo se esclarecer, ser
sempre assaltado com grande temor, porque os homens so sempre inimigos
  dos empreendimentos onde vejam dificuldades, e no se pode encontrar
  facilidade para atacar quem tenha sua cidade forte e no seja odiado
                               pelo povo.
                                    
As cidades da Alemanha gozam de grande liberdade, tm pouco territrio e
obedecem ao imperador quando assim querem, no temendo nem a este nem a
   outro poderoso que lhes esteja ao derredor porque so de tal forma
    fortificadas que todos pensam dever ser enfadonha e difcil sua
  expugnao. Na verdade, todas tm fossos e muros adequados, possuem
    artilharia suficiente, conservam sempre nos armazns pblicos o
necessrio para beber, comer e arder por um ano; alm disso, para manter
 a plebe alimentada sem prejuzo do povo, tm sempre, em comum, por um
ano, meios para lhe dar trabalho naquelas atividades que sejam o nervo e
a vida daquelas cidades e das indstrias das quais a plebe se alimente.
Tm em grande conceito os exerccios militares, a respeito dos quais tm
                     muitas leis de regulamentao.
                                    
 Um prncipe, pois, que tenha uma cidade forte e no se faa odiar, no
pode ser atacado e, existindo algum que o assaltasse, retirar-se-ia com
vergonha, eis que as coisas do mundo so assim to variadas que  quase
 impossvel algum pudesse ficar com os exrcitos ociosos por um ano, a
 assedi-lo. A quem replicasse que, tendo as suas propriedades fora da
cidade e vendo-as a arder, o povo no ter pacincia e o longo assdio e
a piedade de si mesmo o faro esquecer o prncipe, eu responderia que um
  prncipe poderoso e afoito superar sempre aquelas dificuldades, ora
 dando aos sditos esperana de que o mal no ser longo, ora incutindo
temor da crueldade do inimigo, ora assegurando-se com destreza daqueles
 que lhe paream muito temerrios. Alm disso,  razovel que o inimigo
deva queimar o pas apenas chegado, nos tempos em que o nimo dos homens
 est ainda ardente e voluntarioso na defesa; por isso, o prncipe deve
 ter pouca dvida porque, depois de alguns dias, quando os nimos esto
mais frios, os danos j foram causados, os males j foram sofridos e no
   h mais remdio; ento, os sditos vm se unir ainda mais ao semi
prncipe, parecendo-lhes que este lhes deva obrigao, uma vez que suas
casas foram incendiadas e suas propriedades arruinadas para a defesa do
   mesmo. E a natureza dos homens  aquela de obrigar-se tanto pelos
benefcios que so feitos como por aqueles que se recebem. Donde, em se
considerando tudo bem, no ser difcil a um prncipe prudente conservar
 firmes, antes e depois do cerco, os nimos de seus cidados, desde que
                no faltem vveres nem meios de defesa.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XI
                                    
                     DOS PRINCIPADOS ECLESISTICOS
                                    
                    (DE PRINCIPATIBUS ECLESIASTICIS)
                                    
                                    
                                    
Resta-nos somente, agora, falar dos principados eclesisticos, nos quais
   todas as dificuldades existem antes que se os possuam, eis que so
    adquiridos ou pela virtude ou pela fortuna, e sem uma e outra se
conservam, porque so sustentados pelas ordens de h muito estabelecidas
na religio; estas tornam-se to fortes e de tal natureza que mantm os
seus prncipes sempre no poder, seja qual for o modo por que procedam e
  vivam. S estes possuem Estados e no os defendem; sditos, e no os
  governam; os Estados, por serem indefesos, no lhes so tomados; os
 sditos, por no serem governados, no se preocupam, no pensam e nem
 podem separar-se deles. Somente estes principados, pois, so seguros e
 felizes. Mas, sendo eles dirigidos por razo superior,  qual a mente
humana no atinge, deixarei de falar a seu respeito,mesmo porque, sendo
  engrandecidos e mantidos por Deus, seria obra de homem presunoso e
  temerrio dissertar a seu respeito. Contudo, se algum me perguntar
  donde provm que a Igreja, no poder temporal, tenha chegado a tanta
  grandeza, pois que antes de Alexandre os potentados italianos, e no
apenas aqueles que eram ditos "potentados" mas qualquer baro e senhor,
   mesmo que sem importncia, pouco valor davam ao poder temporal da
Igreja, e agora um rei de Frana treme, ela pode expuls-lo da Itlia e
 ainda logra arruinar os venezianos, apontarei fatos que, a despeito de
   conhecidos, no me parece suprfluo reavivar em parte na memria.
                                    
  Antes que Carlos, rei da Frana, invadisse a Itlia, esta provncia
encontrava-se sob o domnio do Papa, dos venezianos, do rei de Npoles,
do duque de Milo e dos florentinos. Estes potentados tinham de se haver
  com dois cuidados principais: um, que nenhum estrangeiro entrasse na
   Itlia com tropas; o outro, que nenhum deles ocupasse mais Estado.
Aqueles dos quais se tinha mais receio eram o Papa e os venezianos. Para
 conter os venezianos tornou-se necessria a unio de todos os demais,
  como ocorreu na defesa de Ferrara; para deter o Papa, serviam-se dos
  bares de Roma, eis que. estando divididos em duas faces, Orsni e
  Colonna, sempre existia motivo de discrdia entre eles e, estando de
arma em punho sob os olhos do pontfice, mantinham o pontificado fraco e
  inseguro. Se bem surgisse, vez por outra, um Papa animoso, como foi
    Xisto, nem a sua fortuna nem o seu saber puderam livr-lo desses
  inconvenientes. A brevidade da vida dos pontfices era a causa dessa
situao, porque, nos dez anos que, em mdia, vivia um Papa, somente com
    muita dificuldade podia ele enfraquecer uma das faces; se, por
  exemplo, um deles tivesse quase extinguindo os collonessi surgia um
outro, inimigo dos Orsni, que os fazia ressurgir sem que tivesse tempo
   de liquidar os Orsni. Isto tornava o poder temporal do Papa pouco
                         considerado na Itlia.
                                    
Surgiu depois Alexandre VI que, de todos os pontfices que j existiram,
 foi o que mostrou o quanto um Papa podia, com o dinheiro e as tropas,
  para adquirir maior poder; e fez, com o uso do Duque Valentino como
instrumento e com a oportunidade da invaso dos franceses, todas aquelas
   coisas que relatei acima com relao s aes do duque. Se bem seu
   intento no fosse o de tornar grande a Igreja mas sim o duque, no
  obstante, tudo o que fez reverteu em favor da grandeza da Igreja, a
qual, aps a sua morte, extinto o duque, se tornou herdeira de sua obra.
 Veio depois o Papa Jlio e encontrou a Igreja grande, possuindo toda a
Romanha, reduzidos  impotncia os bares de Roma e, pelas perseguies
  de Alexandre, anuladas aquelas faces; encontrou, ainda, o caminho
 aberto para acumular dinheiro, o que jamais havia sido feito antes de
                               Alexandre.
                                    
Jlio no s seguiu tais prticas, como as ampliou; pensou em conquistar
  Bolonha, extinguir os venezianos e expulsar os franceses da Itlia:
  todos esses empreendimentos lhe saram bem, e com tanto maior louvor
quanto realizou tudo isso para engrandecer a Igreja e no para favorecer
algum cidado particular. Conservou, ainda, os partidos dos Orsni e dos
 Colonna nas mesmas condies em que os encontrara e, se bem entre eles
  houvesse algum chefe capaz de fazer mudar a situao, duas coisas os
  mantiveram quietos: uma, a grandeza da Igreja, que os atemorizava; a
outra, no terem eles cardeais, os quais so os causadores dos tumultos
entre as faces. Nem em tempo algum ficaro quietas essas partes, desde
que possuam cardeais, pois estes sustentam os partidos dentro e fora de
   Roma e os bares so forados a defend-los; assim, da ambio dos
   prelados, nascem as discrdias e os tumultos entre os bares. Sua
    Santidade, o Papa Leo, encontrou o pontificado potentssimo e,
espera-se, se aqueles que referimos o fizeram grande pelas armas, este o
 far ainda maior e mais venerado pela bondade e suas outras infinitas
                               virtudes.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XII
                                    
    DE QUANTAS ESPCIES SO AS MILCIAS, E DOS SOLDADOS MERCENRIOS
                                    
        (QUOT SINT GENERA MILITIAE ET DE MERCENARIIS MILITIBUS)
                                    
                                    
                                    
  Tendo falado detalhadamente de todas as espcies de principados, dos
quais j no incio me propus comentar, e consideradas, em alguns pontos,
as causas do bem-estar e do mal-estar dos mesmos, mostrados que foram os
modos pelos quais muitos procuraram adquiri-los e conserv-los, resta-me
 agora falar de forma genrica dos meios ofensivos e defensivos que em
 cada um dos citados principados possam ocorrer, Dissemos acima como 
      necessrio a um prncipe ter bons fundamentos; do contrrio,
   necessariamente, cair em runa. Os principais fundamentos que os
  Estados tm, tanto os novos como os velhos ou os mistos, so as boas
leis e as boas armas. E, como no pode haver boas leis onde no existam
boas armas e onde existam boas armas convm que haja boas leis, deixarei
           de falar das leis e me reportarei apenas s armas.
                                    
Digo, pois, que as armas com as quais um prncipe defende o seu Estado,
  ou so suas prprias ou so mercenrias, ou auxiliares ou mistas. As
 mercenrias e as auxiliares so inteis e perigosas e, se algum tem o
seu Estado apoiado nas tropas mercenrias, jamais estar firme e seguro,
    porque elas so desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiis;
galhardas entre os amigos, vis entre os inimigos; no tm temor a Deus e
 no tm f nos homens, e tanto se adia a runa, quanto se transfere o
 assalto; na paz se  espoliado por elas, na guerra, pelos inimigos. A
    razo disto  que elas no tm outro amor nem outra razo que as
mantenha em campo, a no ser um pouco de soldo, o qual no  suficiente
para fazer com que queiram morrer por ti. Querem muito ser teus soldados
enquanto no ests em guerra, mas, quando esta surge, querem fugir ou ir
                                embora.
                                    
Para persuadir de tais coisas no me  necessria muita fadiga, eis que
a atual runa da Itlia no foi causada por outro fator seno o de ter,
por espao de muitos anos, repousado sobre as armas mercenrias. Elas j
fizeram algo em favor de alguns e pareciam galhardas nas lutas entre si;
mas, quando surgiu o estrangeiro, mostraram-lhe o que eram. Por isso foi
possvel a Carlos, rei de Frana, tomar a Itlia com o giz; e quem disse
 que a causa disso foram os nossos pecados, dizia a verdade, se bem que
 esses pecados no fossem aqueles que ele julgava, mas sim esses que eu
  narrei, e como eram pecados de prncipes, estes sofreram o castigo.
                                    
 Quero demonstrar melhor a infeliz qualidade destas tropas. Os capites
  mercenrios ou so homens excelentes, ou no: se o forem, no podes
 confiar, porque sempre aspiraro  prpria grandeza, abatendo a ti que
s o seu patro, ou oprimindo os outros contra a tua vontade; mas se no
     forem grandes chefes, certamente te levaro  runa. E, se for
  respondido que qualquer um que detenha as foras nas mos far isso,
 mercenrio ou no, responderei dizendo como as armas devem ser usadas
 por um prncipe ou por uma Repblica. O prncipe deve ir pessoalmente
  com as tropas e exercer as atribuies do capito: a Repblica deve
mandar seus cidados e, quando enviar um que no se revele valente, deve
   substitui-lo, quando animoso deve det-lo com as leis para que no
     avance alm do limite. Por experincia se vem prncipes ss e
 repblicas armadas fazerem grandes progressos, enquanto se vem tropas
mercenrias no causarem mais do que danos. Ainda, uma Repblica armada
  de tropas prprias se submete ao domnio de um seu cidado com muito
    maior dificuldade do que aquela que esteja protegida por tropas
                       mercenrias ou auxiliares.
                                    
Roma e Esparta foram durante muitos sculos armadas e livres, Os suos
 so armadssimos e librrimos, Das armas mercenrias antigas, podemos
 citar como exemplo os cartagineses, os quais quase foram oprimidos por
 seus soldados mercenrios, ao fim da primeira guerra com os romanos, a
despeito de terem por chefes os prprios cidados de Cartago. Felipe da
Macednia foi pelos tebanos feito capito de sua gente, depois da morte
de Epaminondas, e aps a vitria lhes tolheu a liberdade, Os milaneses,
  morto o Duque Felipe, assalariaram Francisco Sforza para combater os
  venezianos e o mesmo, vencidos os inimigos em Caravaggio, a estes se
uniu para oprimir os milaneses, seus patres. Sforza, seu pai, estando a
 servio da Rainha Joana de Npoles, deixou-a repentinamente desarmada;
  por isso ela, para no perder o reino, foi obrigada a lanar-se aos
                        braos do Rei de Arago.
                                    
  E se venezianos e florentinos, ao contrrio, tiveram aumentado o seu
domnio com essas tropas, e os seus capites se fizeram prncipes mas os
defenderam, esclareo que os florentinos, neste caso, foram favorecidos
pela sorte, porque dos capites de valor, aos quais podiam temer, alguns
 no venceram ou tiveram de lutar contra antagonistas, outros voltaram
sua ambio para paragens diversas. Quem no venceu foi Giovanni Aucut,
  por isso mesmo no se podendo conhecer de sua fidelidade, mas todos
 estaro concordes que, tivesse vencido, os florentinos estariam  sua
  merc. Sforza sempre teve os Braccio contra si, vigiando-se uns aos
outros. Francisco voltou sua ambio para a Lombardia, Braccio contra a
Igreja e o reino de Npoles. Mas, vejamos o que ocorreu h pouco tempo.
    Os florentinos fizeram Paulo Vitelli seu capito, homem de muita
prudncia e que, de vida privada, havia alcanado mui grande reputao.
     Se ele conquistasse Pisa, no haveria quem negasse convir aos
 florentinos estar sob suas ordens, mesmo porque, se ele tivesse ficado
  como soldado de seus inimigos, no teriam remdio e, tendo-o ao seu
                      lado, deveriam obedecer-lhe.
                                    
   Os venezianos, se se considerar os seus progressos, ver-se- terem
operado segura e gloriosamente enquanto fizeram a guerra sozinhos (o que
 foi antes de voltarem suas vistas para a terra) sendo que, com o apoio
dos gentis-homens e com a plebe armada, operaram mui galhardamente; mas,
 como eles comearam a combater em terra, abandonaram essa prudncia e
 seguiram os costumes de guerra da Itlia. No princpio de sua expanso
    terrestre, por no possurem muito Estado e por usufrurem alta
    reputao, no precisavam temer muito seus capites; mas, quando
  ampliaram suas conquistas, o que ocorreu sob o Carmignola, tiveram a
   prova desse erro. Por tanto, tendo visto seu valor quando sob seu
comando bateram o duque de Milo e sentindo, de outra parte, quanto ele
 esfriara no conduzir a guerra, julgaram no mais ser possvel com ele
vencer dada a sua m vontade; e no podendo licenci-lo para no perder
aquilo que tinham adquirido, para se garantirem viram-se na contingncia
   de mat-lo, Tiveram depois por seus capites Bartolomeu e Bergamo,
Roberto de So Severino, Conde de Pitigliano e outros parecidos, com os
   quais deviam temer as derrotas e no suas conquistas, como ocorreu
depois em Vail, onde, num dia, perderam tudo aquilo que, em oitocentos
 anos, com tanta fadiga, tinham conquistado. Na verdade, destas tropas
   resultam apenas lentas, tardias e fracas conquistas, mas rpidas e
miraculosas perdas. E, como apresentei estes exemplos da Itlia que tem
  sido por muitos anos dominada por armas mercenrias, quero analisar
 essas tropas por forma mais genrica, a fim de que, vendo a origem e o
   desenvolvimento das mesmas, se possa melhor corrigir o erro de seu
                                emprego.
                                    
Deveis, pois, saber como, logo que nestes ltimos anos o imprio comeou
   a ser repelido da Itlia e o Papa passou a ter reputao no poder
temporal, a Itlia dividiu-se em vrios Estados. Na verdade, muitas das
 maiores cidades tomaram das armas contra seus nobres, os quais, antes
  favorecidos pelo imperador, as mantinham oprimidas, e a Igreja, para
 obter reputao em seu poder temporal, as favorecia em tal; de muitas
            outras, os seus cidados se tornaram prncipes.
                                    
Da resultar que, tendo a Itlia quase toda, chegado a cair nas mos da
  Igreja e de algumas repblicas, no estando aqueles padres e aqueles
    outros cidados habituados ao uso das armas, comearam a aliciar
  mercenrios estrangeiros. O primeiro que deu fama a essa milcia foi
Alberico da Conio, natural da Romanha, sendo que de sua escola de armas
 vieram, dentre outros, Braccio e Sforza, nos seus dias os rbitros da
 Itlia. Depois destes vieram todos os outros que at nossos tempos tm
  chefiado essas tropas, e o fim do valor das mesmas foi que a Itlia
viu-se percorrida por Carlos, saqueada por Lus, violentada por Fernando
                       e desonrada pelos suos.
                                    
 A ordem que eles observaram inicialmente foi, para dar reputao a si
  prprios, tirar o conceito da infantaria, Fizeram isso porque, sendo
 eles sem Estado e vivendo da indstria das armas, poucos infantes no
  lhes dariam fama e, sendo muitos, no poderiam aliment-los; assim,
 limitaram-se  cavalaria onde, com nmero suportvel, as tropas podiam
 ser nutridas e eles honrados. E, afinal, a situao tornou-se tal que,
   em um exrcito de vinte mil soldados, no se encontravam dois mil
infantes. Tinham, alm disso, usado todos os meios para afastar de si e
   de seus soldados o cansao e o medo, no se matando nos combates,
   fazendo-se prisioneiros uns aos outros e libertando-se depois sem
resgate. No atacavam as cidades muradas e os das cidades no assaltavam
os acampamentos; no faziam nem estacadas nem fossos, no saam a campo
     no inverno. Todas estas coisas eram permitidas nas suas regras
 militares, por eles encontradas para fugir, como foi dito,  fadiga e
   aos perigos; foi por isso que arrastaram a Itlia  escravido e 
                                desonra.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XIII
                                    
               DOS SOLDADOS AUXILIARES, MISTOS E PRPRIOS
                                    
             (DE MILITIBUS AUXILIARIIS, MIXTIS ET PROPRIIS)
                                    
                                    
                                    
As tropas auxiliares, que so as outras foras inteis, so aquelas que
se apresentam quando chamas um poderoso para que, com seus exrcitos, te
 venha ajudar e defender, como fez em tempos recentes o Papa Jlio que,
   tendo visto na campanha de Ferrara a triste figura de suas tropas
    mercenrias, voltou-se para as auxiliares e entrou em acordo com
Fernando, rei da Espanha, no sentido de que este, com sua gente e armas,
viesse ajud-lo. Estas tropas auxiliares podem ser teis e boas para si
   mesmas, mas, para quem as chame, so quase sempre danosas, eis que
       perdendo ficas liquidado, vencendo ficas seu prisioneiro.
                                    
 E, ainda que destes exemplos estejam cheias as antigas histrias, no
  quero abandonar esta recente lio de Jlio II, cuja deliberao de
entregar-se inteiramente s mos de um estrangeiro, por querer Ferrara,
   no podia ter sido mais insensata. Mas a boa sorte fez surgir uma
terceira circunstncia, a fim de que no viesse ele a colher o resultado
  de sua m deciso; sendo os seus auxiliares derrotados em Ravenna e
   surgindo os suos que, contra a expectativa de Jlio e de outros,
   expulsaram os vencedores, o Papa no se tornou prisioneiro nem dos
vencedores, que fugiram, nem de suas tropas auxiliares, por ter vencido
com outras armas que no as delas. Os florentinos, estando completamente
 desarmados, levaram dez mil franceses a Pisa para atac-la, resoluo
essa em razo da qual passaram por maior perigo do que em qualquer tempo
de seus prprios trabalhos. O imperador de Constantinopla, para opor-se
 a seus vizinhos, concentrou na Grcia dez mil turcos que, terminada a
   guerra, no quiseram abandonar o pas, o que constitui o incio da
                    sujeio da Grcia aos infiis.
                                    
Assim, aquele que queira no poder vencer, valha-se destas tropas muito
mais perigosas do que as mercenrias, eis que com estas a runa  certa,
  dado que so todas unidas, todas voltadas  obedincia a outrem. As
mercenrias, para te prejudicarem aps a vitria, contrariamente ao que
 ocorre com as mistas, precisam de mais tempo e maior oportunidade, no
s por no constiturem um todo, como tambm por terem sido organizadas
  e pagas por ti; ainda, um terceiro que nelas tornes chefe, no pode
 desde logo assumir tanta autoridade que te cause dano. Enfim, enquanto
nas tropas mercenrias o mais perigoso  a covardia, nas auxiliares  o
                                 valor.
                                    
 Um prncipe prudente, portanto, sempre tem fugido a essas tropas para
   voltar-se s suas prprias foras, preferindo perder com as suas a
   vencer com aquelas, eis que, em verdade, no representaria vitria
 aquela que fosse conquistada com as armas alheias. Jamais vacilarei em
   citar como exemplo Csar Brgia e suas aes. Este duque entrou na
 Romanha com tropas auxiliares, para a conduzindo as foras francesas,
  com elas tomando Imola e Forli. Mas, depois, no mais lhe parecendo
   seguras tais armas, voltou-se para as mercenrias, julgando nelas
 encontrar menor perigo; e tomou a seu servio os Orsini e os Viteili.
 Posteriormente, manejando essas foras e achando-as dbias, infiis e
   perigosas, extinguiu-as e voltou-se para as suas prprias tropas.
Pode-se ver facilmente a diferena que existe entre umas e outras dessas
  armas, considerando a modificao da reputao do duque entre quando
  tinha apenas os franceses e depois os Orsni e Vitelli, e quando ele
     ficou com soldados seus e sob seu prprio comando: sempre se a
encontrar acrescida, e nem foi suficientemente amado seno quando todos
          viram que ele era o senhor absoluto de suas tropas.
                                    
Eu no queria abandonar os exemplos italianos e mais recentes; contudo,
no desejo esquecer Hiero de Siracusa, um dos acima indicados por mim.
Este, como j disse, tornado pelos siracusanos chefe dos exrcitos, logo
   reconheceu no ser til a tropa mercenria, por serem seus chefes
idnticos aos nossos italianos; parecendo-lhe no poder conserv-los nem
dispens-los, fez cortar todos eles em pedaos, passando depois a fazer
 guerra com tropas suas e no com as de outrem, Quero, ainda, trazer 
   lembrana uma alegoria do Velho Testamento feita a este propsito.
 Oferecendo-se David a Saul para lutar com Golias, provocador filisteu,
   Saul, para encoraj-lo, revestiu-o com suas prprias armaduras, as
 quais, uma vez envergadas por David, foram por ele recusadas: com elas
  no poderia bem se valer de si mesmo, preferindo enfrentar o inimigo
 apenas com sua funda e sua faca. Enfim, as armas de outrem, ou te caem
                de cima, ou te pesam ou te constrangem.
                                    
    Carlos VII, pai de Lus XI, tendo com sua fortuna e sua virtude
 libertado a Frana dos ingleses, conheceu essa necessidade de armar-se
  com foras prprias, e organizou em seu reino, por forma regular, as
 armas de cavalaria e de infantaria. Mais tarde, o Rei Lus, seu filho,
  extinguiu a infantaria e comeou a aliciar os suos, erro esse que,
 seguido de outros, tornou-se, como realmente agora se v, a razo dos
  perigos daquele reino, Na verdade, dando reputao aos suos, Luis
aviltou todas as suas tropas, j que extinguiu as foras de infantaria e
 subordinou sua cavalaria s milcias de outrem, e a esta, acostumada a
  militar com os suos, pareceu no ser possvel vencer sem eles. Da
 decorre que no bastam os franceses contra os suos e, sem os suos,
 no tentam a luta contra os outros. Os exrcitos de Frana, pois, tm
  sido mistos, parte de mercenrios e parte de tropas prprias, foras
 essas que, juntas, so muitos melhores que as simples auxiliares ou as
 meramente mercenrias e muito inferiores ao exrcito prprio. Basta o
     exemplo citado, pois o reino de Frana seria invencvel, se a
 organizao militar de Carlos tivesse sido desenvolvida ou conservada.
 Mas a pouca prudncia dos homens muitas vezes comea uma coisa que lhe
 parece boa, sem se aperceber do veneno que ela encobre, como j disse
                  acima a respeito das febres ticas.
                                    
Portanto, aquele que num principado no conhece os males logo no incio,
no  verdadeiramente sbio, o que  dado a poucos. E, se se considerar
   o incio da runa do Imprio Romano, ver-se- ter ela resultado do
simples comeo de aliciamento dos godos, eis que foi dai que comearam a
  declinar as foras do Imprio Romano e todo aquele valor que se lhe
tirava era atribudo a eles. Concluo, pois, que, sem ter armas prprias,
nenhum principado est seguro; ao contrrio, fica ele totalmente sujeito
  sorte, no havendo virtude que o defenda na adversidade. Foi sempre
 opinio e sentena dos homens sbios, quod nihl sit tam infirmum aut
 instabile, quam fama potentiae non sua vi nixa. As foras prprias so
aquelas que se constituem de sditos, de cidados ou de criaturas tuas;
todas as outras so ou mercenrias ou auxiliares. O modo de organizar as
 tropas prprias ser fcil de encontrar, se se analisar a organizao
 dos quatro por mim mencionados, e se se considerar como Felipe, pai de
    Alexandre Magno, e muitas repblicas e principados, se armaram e
     organizaram; a essas organizaes eu me reporto inteiramente.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XIV
                                    
         O QUE COMPETE A UM PRNCIPE ACERCA DA MILCIA (TROPA)
                                    
                 (QUOD PRINCIPEM DECEAT CIRCA MILITIAM)
                                    
                                    
                                    
Deve, pois, um prncipe no ter outro objetivo nem outro pensamento, nem
tomar qualquer outra coisa por fazer, seno a guerra e a sua organizao
e disciplina, pois que  essa a nica arte que compete a quem comanda. E
      ela de tanta virtude, que no s mantm aqueles que nasceram
 prncipes, como tambm muitas vezes faz os homens de condio privada
   subirem quele posto; ao contrrio, v-se que, quando os prncipes
  pensam mais nas delicadezas do que nas armas, perdem o seu Estado. A
 primeira causa que te faz perder o governo  negligenciar dessa arte,
  enquanto que a razo que te permite conquist-lo  o ser professo da
                                 mesma.
                                    
    Francisco Sforza, por estar armado, de cidado privado que era,
tornou-se duque de Milo; os filhos, para fugir s fadigas das armas, de
 duques passaram a simples cidados privados. Em verdade, entre outros
   males que te acarreta o estares desarmado, ele te torna vil, o que
constitui uma daquelas infmias de que o prncipe se deve guardar, como
abaixo ser exposto. Realmente, entre um prncipe armado e um desarmado,
  no existe proporo alguma, e no  razovel que quem esteja armado
 obedea com gosto ao que seja desprovido de armas, nem que o desarmado
 se sinta seguro entre servidores armados, eis que, existindo desdm de
   parte de um e suspeita do lado do outro, no  possvel ajam bem,
 estando juntos. Ainda, um prncipe que no entende de tropas, alm dos
outros prejuzos referidos, sofre aquele de no poder ser estimado pelos
                seus soldados e nem poder neles confiar.
                                    
     Deve o prncipe, portanto, no desviar um momento sequer o seu
 pensamento do exerccio da guerra, o que pode fazer por dois modos: um
   com a ao, o outro com a mente, Quanto  ao, alm de manter bem
 organizadas e exercitadas as suas tropas, deve estar sempre em caadas
para acostumar o corpo s fadigas e, em parte, para conhecer a natureza
 dos lugares e saber como surgem os montes, como embocam os vales, como
se estendem as plancies, e aprender a natureza dos rios e dos pntanos,
pondo muita ateno em tudo isso. Esses conhecimentos so teis por duas
razes: primeiro, aprende-se a conhecer o prprio pas e pode-se melhor
   identificar as defesas que ele oferece; depois, em decorrncia do
 conhecimento e prtica daqueles stios, com facilidade poder entender
 qualquer outra regio que venha a ter de observar, eis que as colinas,
os vales, as plancies, os rios e os pntanos que existem, por exemplo,
na Toscana, tm certa semelhana com os das outras provncias, de forma
    que, do conhecimento do terreno de uma provncia, se pode passar
 facilmente ao de outras. O prncipe que seja falto dessa percia, est
 desprovido do elemento principal de que necessita um capito, pois ela
 ensina a encontrar o inimigo, estabelecer os acampamentos, conduzir os
    exrcitos, ordenar as jornadas, fazer incurses pelas terras com
                       vantagem sobre o inimigo.
                                    
   Filopmenes, prncipe dos Aqueus, dentre os louvores que lhe foram
 endereados pelos escritores, mereceu tambm aquele de que, nos tempos
 de paz, em outra coisa no pensava seno em torno de guerra e, quando
 excursionando pelos campos com os amigos, freqentemente parava e com
eles argumentava: - Se os inimigos estivessem sobre aquela colina e ns
nos encontrssemos aqui com nosso exrcito, qual de ns teria vantagem?
Como se poderia atac-los, mantendo a formao da tropa? Se quisssemos
   nos retirar, como deveramos proceder? Se eles se retirassem, como
 faramos para persegui-los? - E propunha-lhes, andando, todos os casos
 que possam ocorrer em um exrcito; ouvia a opinio dos mesmos, dava a
 sua corroborando-a com argumentos, de maneira tal que, em razo dessas
contnuas cogitaes, jamais poderia, comandando os exrcitos, encontrar
     pela frente algum imprevisto para o qual no tivesse soluo.
                                    
 Mas, quanto ao exerccio da mente, deve o prncipe ler as histrias e
 nelas observar as aes dos grandes homens, ver como se conduziram nas
 guerras, examinar as causas de suas vitrias e de suas derrotas, para
 poder fugir s responsveis por estas e imitar as causadoras daquelas;
  deve fazer, sobretudo, como, em tempos idos, fizeram alguns grandes
     homens que imitaram todo aquele que antes deles foi louvado e
glorificado, e sempre tiveram em si os gestos e as aes do mesmo, como
se diz que Alexandre Magno imitava a Aquiles, Csar a Alexandre, Cipio
a Ciro. Quem l a vida de Ciro escrita por Xenofonte percebe, depois, na
 vida de Cipio, o quanto lhe valeu para a glria aquela imitao, bem
  como o quanto na castidade, afabilidade, humanidade e liberalidade,
Cipio se assemelhava quilo que Xenofonte escreveu de Ciro. Um prncipe
  inteligente deve observar essa semelhana de proceder, nunca ficando
   ocioso nos tempos de paz, mas sim, com habilidade, procurar formar
cabedal para poder utiliz-lo na adversidade, a fim de que, quando mudar
            a fortuna, se encontre preparado para resistir.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XV
                                    
DAQUELAS COISAS PELAS QUAIS OS HOMENS, E ESPECIALMENTE OS PRNCIPES, SO
                        LOUVADOS OU VITUPERADOS
                                    
  (DE HIS REBUS QUIBUS HOMINES, ET PRAESERTIM PRINCIPES, LAUDANTUR AUT
                             VITUPERANTUR)
                                    
                                    
                                    
  Resta ver agora quais devam ser os modos e o proceder de um prncipe
para com os sditos e os amigos e, por que sei que muitos j escreveram
a respeito, duvido no ser considerado presunoso escrevendo ainda sobre
 o mesmo assunto, mxime quando irei disputar essa matria  orientao
  j por outros dada aos prncipes. Mas, sendo minha inteno escrever
algo de til para quem por tal se interesse, pareceu-me mais conveniente
ir em busca da verdade extrada dos fatos e no  imaginao dos mesmos,
    pois muitos conceberam repblicas e principados jamais vistos ou
conhecidos como tendo realmente existido. Em verdade, h tanta diferena
 de como se vive e como se deveria viver, que aquele que abandone o que
se faz por aquilo que se deveria fazer, aprender antes o caminho de sua
runa do que o de sua preservao, eis que um homem que queira em todas
   as suas palavras fazer profisso de bondade, perder-se- em meio a
tantos que no so bons. Donde  necessrio, a um prncipe que queira se
manter, aprender a poder no ser bom e usar ou no da bondade, segundo a
                              necessidade.
                                    
Deixando de parte, assim, os assuntos relativos a um prncipe imaginrio
e falando daqueles que so verdadeiros, digo que todos os homens, mxime
     os prncipes por situados em posio mais preeminente, quando
   analisados, se fazem notar por alguns daqueles atributos que lhes
 acarretam ou reprovao ou louvor. Assim  que alguns so havidos como
liberais, alguns miserveis (usando um termo toscano, porque "avaro" em
  nossa lngua  ainda aquele que deseja possuir por rapina, enquanto
   "miservel" chamamos aquele que se abstm em excesso de usar o que
possui); alguns so tidos como prdigos, alguns rapaces; alguns cruis,
alguns piedosos; um fedfrago, o outro fiel; um efeminado e pusilnime,
o outro feroz e animoso; um humano, o outro soberbo; um lascivo, o outro
 casto; um simples, o outro astuto; um duro, o outro fcil; um grave, o
  outro leviano; um religioso, o outro incrdulo, e assim por diante.
                                    
 Sei que cada um confessar que seria sumamente louvvel encontrarem-se
 em um prncipe, de todos os atributos acima referidos, apenas aqueles
   que so considerados bons; mas, desde que no os podem possuir nem
   inteiramente observ-los em razo das contingncias humanas no o
permitirem,  necessrio seja o prncipe to prudente que saiba fugir 
infmia daqueles vcios que o fariam perder o poder, cuidando evitar at
  mesmo aqueles que no chegariam a pr em risco o seu posto; mas, no
podendo evitar,  possvel toler-los, se bem que com quebra do respeito
  devido. Ainda, no evite o prncipe de incorrer na m faina daqueles
vcios que, sem eles, difcil se lhe torne salvar o Estado; pois, se bem
 considerado for tudo, sempre se encontrar alguma coisa que, parecendo
 virtude, praticada acarretar runa, e alguma outra que, com aparncia
       de vcio, seguida dar origem  segurana e ao bem-estar.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XVI
                                    
                    DA LIBERALIDADE E DA PARCIMNIA
                                    
                    (DE LIBERALITATE ET PARSIMONIA)
                                    
                                    
                                    
 Comeando, pois, com os primeiros dos j referidos atributos, digo que
 seria um bem o ser havido como liberal. Contudo, a liberalidade, usada
  por forma que se torne conhecida de todos, te prejudica, porque, se
usada virtuosamente e como se a deve usar, ela no se torna conhecida e
 no conseguirs tirar de cima de ti a m fama do seu contrrio; porm,
    querendo manter entre os homens o nome de liberal,  preciso no
 esquecer nenhuma espcie de suntuosidade, de forma tal que um prncipe
 assim procedendo consumir em ostentao todas as suas finanas e ter
necessidade de, ao final, se quiser manter o conceito de liberal, gravar
 extraordinariamente o povo de impostos, ser duro no fisco e fazer tudo
  aquilo de que possa se utilizar para obter dinheiro. Isso comear a
torn-lo odioso perante o povo e, empobrecendo-o, f-lo- pouco estimado
de todos; de forma que, tendo ofendido a muitos e premiado a poucos com
essa sua liberalidade, sente mais intensamente qualquer revs inicial e
periclita face ao primeiro perigo. Percebendo isso e querendo recuar, o
          prncipe incorre desde logo na m fama de miservel.
                                    
Um prncipe, pois, no podendo usar essa qualidade de liberal sem sofrer
dano, tornando-a conhecida, deve ser prudente, deve no se preocupar com
a pecha de miservel, eis que, com o decorrer do tempo, ser considerado
   sempre mais liberal, uma vez vendo o povo que com sua parcimnia a
   receita lhe basta, pode defender-se de quem lhe mova guerra e tem
   possibilidade de realizar empreendimentos sem gravar o povo; assim
 agindo, vem a usar liberalidade para com todos aqueles dos quais nada
tira, que so numerosos, e a empregar misria para com todos os outros a
 quem no d, que so poucos. Nos nossos tempos no temos visto grandes
 realizaes seno daqueles que foram havidos por miserveis, enquanto
vimos os outros serem extintos. O Papa Jlio II, como utilizou a fama de
 liberal para atingir ao papado, no pensou depois em conserv-la, para
poder fazer guerra; o atual rei de Frana fez tantas guerras sem lanar
 um tributo extraordinrio sobre seus sditos, somente porque sobreps
  sua parcimnia s despesas suprfluas. O presente rei de Espanha, se
     havido como liberal, no teria realizado nem vencido em tantos
                            empreendimentos.
                                    
 Portanto, um prncipe deve gastar pouco para no precisar roubar seus
sditos, para poder defender-se, para no ficar pobre e desprezado, para
  no ser forado a tornar-se rapace, no se importando de incorrer na
   fama de miservel, porque esse  um daqueles defeitos que o fazem
     reinar. E se algum dissesse que Csar alcanou o Imprio pela
liberalidade, sem contar muitos outros que tm sido ou so considerados
  liberais e atingiram altssimos postos, eu responderia: ou tu j s
prncipe ou ests em via de o ser. No primeiro caso, essa liberalidade 
  prejudicial, no segundo  bem necessrio ser considerado liberal; e
 Csar era um daqueles que queriam ascender ao principado de Roma, mas
     se, depois que o alcanou, tivesse vivido e no tivesse usado
    comedimento nas despesas, teria destrudo o Imprio. E se algum
replicasse que houve muitos prncipes, tidos como extremamente liberais,
  que realizaram grandes feitos com seus exrcitos, responderia: ou o
  prncipe gasta do seu, ou de seus sditos, ou de outrem; no primeiro
  caso, deve ser parcimonioso; nos outros, no deve deixar de praticar
                         nenhuma liberalidade.
                                    
E aquele prncipe que vai com os exrcitos, que se mantm de rapinagem,
 de saques e de resgates, maneja bens de outros, tem necessidade dessa
 liberalidade porque, do contrrio, no ser seguido pelos soldados. E,
  daquilo que no  teu nem de sditos teus, podes ser o mais generoso
doador, como o foram Ciro, Csar e Alexandre, eis que o despender aquilo
que  dos outros no te tira reputao, ao contrrio, a aumenta; somente
o gastar o teu  que te prejudica. E no h coisa que tanto se destrua a
    si mesma como a liberalidade, pois, enquanto tu a usas, perdes a
faculdade de utiliz-la, tornando-te pobre e desprezado ou, para fugir 
 pobreza, rapace e odioso. Dentre todas as coisas de que um prncipe se
deve guardar est o ser desprezado e odiado, e a liberalidade te conduz
a uma e a outra dessas coisas. Portanto,  mais sabedoria ter a fama de
 miservel, que d origem a uma infmia sem dio, do que, por querer o
conceito de liberal, ver-se na necessidade de incorrer no julgamento de
                 rapace, que cria uma m fama com dio.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XVII
                                    
 DA CRUELDADE E DA PIEDADE; SE  MELHOR SER AMADO QUE TEMIDO, OU ANTES
                            TEMIDO QUE AMADO
                                    
 (DE CRUDELITATE ET PIETATE; ET AN SIT MELIUS AMARI QUAM TIMERI, VEL E
                                CONTRA)
                                    
                                    
                                    
Reportando-me s outras qualidades j referidas, digo que cada prncipe
deve desejar ser tido como piedoso e no como cruel: no obstante isso,
   deve ter o cuidado de no usar mal essa piedade. Csar Brgia era
  considerado cruel; entretanto, essa sua crueldade tinha recuperado a
  Romanha, logrando un-la e p-la em paz e em lealdade. O que, se bem
considerado for, mostrar ter sido ele muito mais piedoso do que o povo
  florentino, o qual, para fugir  pecha de cruel, deixou que Pistia
 fosse destruda. Um prncipe no deve, pois, temer a m fama de cruel,
 desde que por ela mantenha seus sditos unidos e leais, pois que, com
   mui poucos exemplos, ele ser mais piedoso do que aqueles que, por
  excessiva piedade, deixam acontecer as desordens das quais resultam
assassnios ou rapinagens: porque estes costumam prejudicar a comunidade
   inteira, enquanto aquelas execues que emanam do prncipe atingem
  apenas um indivduo. E, dentre todos os prncipes,  ao novo que se
 torna impossvel fugir  pecha de cruel, visto serem os Estados novos
          cheios de perigos. Diz Virglio, pela boca de Dido:
                                    
               Res dura,et regni novitas me talia cogunt
                  moliri, et late fines custode tueri.
                                    
 O prncipe, contudo, deve ser lento no crer e no agir, no se alarmar
     por si mesmo e proceder por forma equilibrada, com prudncia e
humanidade, buscando evitar que a excessiva confiana o torne incauto e
              a demasiada desconfiana o faa intolervel.
                                    
Nasce da uma questo: se  melhor ser amado que temido ou o contrrio.
A resposta  de que seria necessrio ser uma coisa e outra; mas, como 
difcil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas  muito mais seguro
     ser temido do que amado. Isso porque dos homens pode-se dizer,
geralmente, que so ingratos, volveis, simuladores, tementes do perigo,
   ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, so todos teus,
  oferecem-te o prprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que,
 como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se
 avizinha, porm, revoltam-se. E o prncipe que confiou inteiramente em
suas palavras, encontrando-se destitudo de outros meios de defesa, est
perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro, e no pela grandeza e
  nobreza de alma, so compradas mas com elas no se pode contar e, no
  momento oportuno, no se torna possvel utiliz-las. E os homens tm
 menos escrpulo em ofender a algum que se faa amar do que a quem se
 faa temer, posto que a amizade  mantida por um vnculo de obrigao
  que, por serem os homens maus,  quebrado em cada oportunidade que a
 eles convenha; mas o temor  mantido pelo receio de castigo que jamais
                              se abandona.
                                    
   Deve o prncipe, no obstante, fazer-se temer de forma que, se no
conquistar o amor, fuja ao dio, mesmo porque podem muito bem coexistir
o ser temido e o no ser odiado: isso conseguir sempre que se abstenha
de tomar os bens e as mulheres de seus cidados e de seus sditos e, em
 se lhe tornando necessrio derramar o sangue de algum, faa-o quando
 existir conveniente justificativa e causa manifesta. Deve, sobretudo,
     abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais
  rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimnio. Alm disso,
  nunca faltam motivos para justificar as expropriaes, e aquele que
 comea a viver de rapinagem sempre encontra razes para apossar-se dos
 bens alheios, ao passo que as razes para o derramamento de sangue so
                 mais raras e esgotam-se mais depressa.
                                    
  Mas quando o prncipe est  frente de seus exrcitos e tem sob seu
  comando uma multido de soldados, ento  de todo necessrio no se
  importar com a fama de cruel, eis que, sem ela, jamais se conservar
 exrcito unido e disposto a alguma empresa. Dentre as admirveis aes
 de Anbal, menciona-se esta: tendo um exrcito imenso, constitudo de
homens de inmeras raas, conduzido a batalhar em terras alheias, nunca
 surgiu qualquer dissenso entre eles ou contra o prncipe, tanto na m
como na boa fortuna. Isso no pode resultar de outra coisa seno daquela
sua desumana crueldade que, aliada s suas infinitas virtudes, o tornou
  sempre venerado e terrvel no conceito de seus soldados; sem aquela
crueldade, as virtudes no lhe teriam bastado para surtir tal efeito e,
 todavia, escritores nisto pouco ponderados, admiram, de um lado, essa
     sua atuao e, de outro, condenam a principal causa da mesma.
                                    
    Para prova de que, realmente, as outras suas virtudes no seriam
bastantes, pode-se considerar o caso de Cipio, homem dos mais notveis
  no somente nos seus tempos mas tambm na memria de todos os fatos
conhecidos, cujos exrcitos se revoltaram na Espanha em conseqncia de
 sua excessiva piedade, pois que havia concedido aos seus soldados mais
   liberdades do que convinha  disciplina militar. Tal fato foi-lhe
 censurado no Senado por Fbio Mximo, o qual chamou-o de corruptor da
 milcia romana. Os locrenses, tendo sido arruinados e abatidos por um
 legado de Cipio, no foram por ele vingados, nem a insolncia daquele
legado foi reprimida, resultando tudo isso de sua natureza fcil; tanto
  assim que, querendo algum desculp-lo perante o Senado, disse haver
muitos homens que melhor sabiam no errar do que corrigir os erros. Essa
sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glria de Cipio,
   tivesse ele perseverado no comando; mas, vivendo sob o governo do
  Senado, esta sua prejudicial qualidade no s desapareceu, como lhe
                          resultou em glria.
                                    
Concluo, pois, voltando  questo de ser temido e amado, que um prncipe
sbio, amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como
deseja, deve apoiar-se naquilo que  seu e no no que  dos outros; deve
          apenas empenhar-se em fugir ao dio, como foi dito.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XVIII
                                    
       DE QUE MODO OS PRNCIPES DEVEM MANTER A F DA PALAVRA DADA
                                    
               (QUOMODO FIDES A PRINCIPIBUS SIT SERVANDA)
                                    
                                    
                                    
 Quando seja louvvel em um prncipe o manter a f (da palavra dada) e
 viver com integridade, e no com astcia, todos compreendem; contudo,
   v-se nos nossos tempos, pela experincia, alguns prncipes terem
realizado grandes coisas a despeito de terem tido em pouca conta a f da
   palavra dada, sabendo pela astcia transtornar a inteligncia dos
 homens; no final, conseguiram superar aqueles que se firmaram sobre a
                               lealdade.
                                    
Deveis saber, ento, que existem dois modos de combater: um com as leis,
   o outro com a fora. O primeiro  prprio do homem, o segundo, dos
animais; mas, como o primeiro modo muitas vezes no  suficiente, convm
 recorrer ao segundo. Portanto, a um prncipe torna-se necessrio saber
 bem empregar o animal e o homem. Esta matria, alis, foi ensinada aos
  prncipes, veladamente, pelos antigos escritores, os quais descrevem
    como Aquiles e muitos outros prncipes antigos foram confiados 
educao do centauro Quiron. Isso no quer dizer outra coisa, o ter por
preceptor um ser meio animal e meio homem, seno que um prncipe precisa
saber usar uma e outra dessas naturezas: uma sem a outra no  durvel.
                                    
Necessitando um prncipe, pois, saber bem empregar o animal, deve deste
 tomar como modelos a raposa e o leo, eis que este no se defende dos
laos e aquela no tem defesa contra os lobos.  preciso, portanto, ser
raposa para conhecer os laos e leo para aterrorizar os lobos. Aqueles
 que agem apenas como o leo, no conhecem a sua arte. Logo, um senhor
    prudente no pode nem deve guardar sua palavra, quando isso seja
 prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o
  levaram a empenh-la. Se todos os homens fossem bons, este preceito
    seria mau; mas, porque so maus e no observariam a sua f a teu
respeito, no h razo para que a cumpras para com eles. Jamais faltaram
a um prncipe razes legtimas para justificar a sua quebra da palavra.
Disto poder-se-ia dar inmeros exemplos modernos, mostrar quantas pazes
 e quantas promessas foram tornadas rritas e vs pela infidelidade dos
 prncipes; e aquele que, com mais perfeio, soube agir como a raposa,
 saiu-se melhor. Mas  necessrio saber bem disfarar esta qualidade e
ser grande simulador e dissimulador: to simples so os homens e de tal
  forma cedem s necessidades presentes, que aquele que engana sempre
                   encontrar quem se deixe enganar.
                                    
   No quero deixar de apontar um dos exemplos recentes. Alexandre VI
 jamais fez outra coisa, jamais pensou em outra coisa seno enganar os
homens, sempre encontrando ocasio para assim poder agir. Nunca existiu
     homem que tivesse maior eficcia em asseverar, que com maiores
 juramentos afirmasse uma coisa e que, depois, menos a observasse; no
 obstante, os enganos sempre lhe resultaram segundo o seu desejo, pois
                    bem conhecia este lado do mundo.
                                    
  A um prncipe, portanto, no  essencial possuir todas as qualidades
   acima mencionadas, mas  bem necessrio parecer possu-las. Antes,
 ousarei dizer que, possuindo-as e usando-as sempre, elas so danosas,
 enquanto que, aparentando possu-las, so teis; por exemplo: parecer
piedoso, fiel, humano, ntegro, religioso, e s-lo realmente, mas estar
 com o esprito preparado e disposto de modo que, precisando no s-lo,
   possas e saibas tornar-te o contrrio, Deve-se compreender que um
  prncipe, e em particular um prncipe novo, no pode praticar todas
aquelas coisas pelas quais os homens so considerados bons, uma vez que,
 freqentemente,  obrigado, para manter o Estado, a agir contra a f,
  contra a caridade, contra a humanidade, contra a religio. Porm, 
preciso que ele tenha um esprito disposto a voltar-se segundo os ventos
 da sorte e as variaes dos fatos o determinem e, como acima se disse,
no apartar-se do bem, podendo, mas saber entrar no mal, se necessrio.
                                    
 Um prncipe, portanto, deve ter muito cuidado em no deixar escapar de
     sua boca nada que no seja repleto das cinco qualidades acima
 mencionadas, para parecer, ao v-lo e ouvi-lo, todo piedade, todo f,
  todo integridade, todo humanidade, todo religio; e nada existe mais
  necessrio de ser aparentado do que esta ltima qualidade.  que os
  homens em geral julgam mais pelos olhos do que pelas mos, porque a
  todos cabe ver mas poucos so capazes de sentir. Todos vem o que tu
aparentas, poucos sentem aquilo que tu s; e esses poucos no se atrevem
  a contrariar a opinio dos muitos que, alis, esto protegidos pela
 majestade do Estado; e, nas aes de todos os homens, em especial dos
 prncipes, onde no existe tribunal a que recorrer, o que importa  o
   sucesso das mesmas, Procure, pois, um prncipe, vencer e manter o
 Estado: os meios sero sempre julgados honrosos e por todos louvados,
     porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparncias e pelos
  resultados, e no mundo no existe seno o vulgo; os poucos no podem
 existir quando os muitos tm onde se apoiar. Algum prncipe dos tempos
atuais, que no convm nomear, no prega seno a paz e f, mas de uma e
  outra  ferrenho inimigo; uma e outra, se ele as tivesse praticado,
    ter-lhe-iam por mais de uma vez tolhido a reputao ou o Estado.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XIX
                                    
            DE COMO SE DEVA EVITAR O SER DESPREZADO E ODIADO
                                    
                    (DE CONTEMPTU ET ODIO FUGIENDO)
                                    
                                    
                                    
  Porque falei das mais importantes das qualidades acima mencionadas,
 desejo discorrer rapidamente sobre as outras, sob estas generalidades:
  que o prncipe pense (como acima se disse em parte) em fugir quelas
  circunstncias que possam torn-lo odioso e desprezvel; sempre que
assim proceder, ter cumprido o que lhe compete e no encontrar perigo
  algum nos outros defeitos. Odioso o tornar, acima de tudo, como j
disse, o ser rapace e usurpador dos bens e das mulheres dos sditos, do
que se deve abster; e, desde que no se tirem nem os bens nem a honra 
  universalidade dos homens, estes vivem felizes e somente se ter de
 combater a ambio de poucos, o que se refreia por muitos modos e com
   facilidade. Desprezvel o torna ser considerado volvel, leviano,
 efeminado, pusilnime, irresoluto, do que um prncipe deve guardar-se
 como de um escolho, empenhando-se para que nas suas aes se reconhea
grandeza, coragem, gravidade e fortaleza; com relao s aes privadas
   dos sditos, deve querer que a sua sentena seja irrevogvel; deve
   manter-se em tal conceito que ningum possa pensar em engan-lo ou
                                tra-lo.
                                    
 O prncipe que d de si esta opinio  assaz reputado e, contra quem 
reputado, s com muita dificuldade se conspira; dificilmente  atacado,
  desde que se considere excelente e seja reverenciado pelos seus. Na
  verdade, um prncipe deve ter dois temores: um de ordem interna, de
    parte de seus sditos, o outro de natureza externa, de parte dos
potentados estrangeiros. Destes se defende com boas armas e bons amigos;
  e sempre que tenha boas armas ter bons amigos. A situao interna,
desde que ainda no perturbada por uma conspirao, estar segura sempre
  que esteja estabilizada a externa; mesmo quando esta se agite, se o
prncipe organizou-se e viveu como eu j disse, desde que no desanime,
   resistir a qualquer impacto, como salientei ter feito o espartano
                                 Nbis.
                                    
Mas, a respeito dos sditos, quando os negcios externos no se agitam,
  deve-se temer que conspirem secretamente, contra o que o prncipe se
  assegura firmemente fugindo de ser odiado ou desprezado e mantendo o
povo com ele satisfeito; isto  de necessidade seja conseguido, como j
  acima se falou longamente. Um dos mais poderosos remdios de que um
   prncipe pode dispor contra as conspiraes  no ser odiado pela
  maioria, porque sempre, quem conjura, pensa com a morte do prncipe
satisfazer o povo, mas, quando considera que com isso ir ofend-lo, no
 se anima a tomar semelhante partido, mesmo porque as dificuldades com
que os conspiradores tm de se defrontar so infinitas. Por experincia
v-se que muitas foram as conspiraes mas poucas tiveram bom fim, pois
quem conspira no pode ser sozinho, nem pode ter por companheiros seno
aqueles que acredite estarem descontentes; mas, logo que tenhas revelado
  a um descontente a tua inteno, lhe ds motivo para ficar contente
porque, evidentemente, ele pode da esperar todas as vantagens; de forma
  que, vendo o ganho certo de um lado, sendo o outro dbio e cheio de
 perigo,  preciso seja ou extraordi 112 nrio amigo teu ou implacvel
        inimigo do prncipe para manter-te a palavra empenhada.
                                    
Para reduzir o assunto a termos breves, digo que do lado do conspirador
no existe seno medo, cime, suspeita de castigo que o atordoa; mas, do
    lado do prncipe, existe a majestade do principado, as leis, as
   barreiras dos amigos e do Estado que o defendem; consequentemente,
somada a tais fatores a benevolncia popular,  impossvel exista algum
 to temerrio que venha a conspirar. Isso porque, geralmente, onde um
conspirador teme antes da execuo do mal, se tiver o povo por inimigo,
 deve temer ainda mesmo depois de ocorrido o fato, no podendo por isso
                        esperar qualquer amparo.
                                    
 Deste assunto poder-se-ia citar inmeros exemplos; porm, limito-me a
apenas um, conservado pela recordao de nossos pais. Tendo sido messer
 Anbal Bentivoglio, prncipe em Bolonha e av do atual messer Anbal,
 morto pelos caneschi que contra ele haviam conspirado, no restando de
 sua famlia seno messer Giovanni que era ainda criana de colo, logo
aps esse homicdio o povo levantou-se e matou todos os canneschi. Isso
  resultou da benquerena popular que a casa de Bentivoglio desfrutava
   naqueles tempos, benquerena essa to grande que, no restando em
 Bolonha qualquer membro dessa famlia em condies de poder governar o
     Estado aps a morte de Anibal e constando haver em Florena um
    descendente dos Bentivoglio que se julgava at ento filho de um
artfice, os bolonheses foram at essa cidade e lhe confiaram o governo
daquela comunidade, a qual foi por ele dirigida at que messer Giovanni
              atingisse a idade conveniente para governar.
                                    
    Concluo, portanto, que um prncipe deve dar pouca importncia s
conspiraes se o povo lhe  benvolo; mas quando este lhe seja adverso
e o tenha em dio, deve temer tudo e a todos. Os Estados bem organizados
e os prncipes hbeis tm com toda a diligncia procurado no desesperar
os grandes e satisfazer o povo conservando-o contente, mesmo porque este
  um dos mais importantes assuntos de que um prncipe tenha de tratar.
                                    
  Entre os reinos bem organizados e governados nos nossos tempos est
  aquele de Frana. Nele existem inmeras boas instituies, das quais
  dependem a liberdade e a segu 113 rana do rei; a primeira delas  o
   Parlamento com a sua autoridade. Aquele que organizou esse reino,
  conhecendo a ambio dos poderosos e a sua insolncia, julgando ser
necessrio pr um freio para corrigi-los e, de outra parte, por conhecer
    o dio da maioria contra os grandes com base no medo, desejando
proteg-la mas no querendo fosse este particular cuidado do rei, buscou
dele retirar o peso da odiosidade dos grandes em sendo favorecido o povo
 ou deste ao dever apoiar os grandes; por isso, constituiu um terceiro
 juiz que fosse aquele que, sem responsabilidade do rei, contivesse os
  grandes e amparasse os pequenos. Essa ordem no podia ser melhor nem
mais prudente, nem se pode negar seja a maior razo da segurana do rei
   e do reino. Da pode-se extrair outra concluso digna de nota: os
prncipes devem atribuir a outrem as coisas odiosas, reservando para si
  aquelas de graa. Novamente concluo que um prncipe deve estimar os
              grandes, mas no se fazer odiado pelo povo.
                                    
Talvez a muitos pudesse parecer, considerando a vida e a morte de alguns
 imperadores romanos, fossem elas exemplos contrrios  minha opinio,
 dado que viveram exemplarmente e demonstraram grandes virtudes e, sem
 embargo disso, perderam o Imprio ou mesmo foram mortos pelos seus que
contra eles conspiraram. Querendo, portanto, responder a estas objees,
falarei das qualidades de alguns imperadores, mostrando as causas de sua
runa, no discrepantes daquilo que foi por mim aduzido, ao mesmo tempo,
  porei em considerao aqueles fatos que so notveis para quem l as
 aes daqueles tempos. Considero suficiente citar todos os imperadores
que se sucederam no poder, desde Marco o filsofo at Maximino, os quais
  foram Marco, seu filho Cmodo, Pertinax, Juliano, Severo, seu filho
     Antonino Caracala, Macrino, Heliogbalo, Alexandre e Maximino.
                                    
 Deve-se notar inicialmente que, enquanto nos outros principados tem-se
de lutar apenas contra a ambio dos grandes e a insolncia do povo, os
  imperadores romanos encontravam uma terceira dificuldade, aquela de
 terem de suportar a crueldade e a ambio dos soldados. Esta terceira
  dificuldade era de tal forma sria que se tornou a causa da runa de
 muitos, pois  difcil satisfazer ao mesmo tempo os soldados e o povo:
este amava a paz e, por isso, estimava os prncipes moderados, enquanto
que os soldados amavam o prncipe de nimo militar, que fosse insolente,
cruel e rapace, querendo que o mesmo exercesse tais violncias contra as
   populaes para poder ter, assim, duplicado soldo e expanso  sua
                        rapacidade e crueldade.
                                    
Tais fatos fizeram com que aqueles imperadores que, por natureza ou por
 engenho, no desfrutavam uma grande reputao de forma a poder manter
      freados um e outros, sempre se arruinassem; a maioria deles,
  principalmente aqueles que como homens novos chegavam ao principado,
conhecida a dificuldade que resultava desses dois sentimentos diversos,
propendiam para satisfazer aos soldados, pouco se preocupando com o fato
 de por tal forma ofender o povo. Esse partido era necessrio: porque,
 no podendo o prncipe deixar de ser odiado por algum, deve primeiro
 buscar no ser odiado por qualquer classe social; mas, quando no pode
 conseguir isto, deve empenhar-se em, por todos os meios, evitar o dio
 daquelas classes que so mais poderosas. Por isso, aqueles imperadores
  que, por serem novos, tinham necessidade de favores extraordinrios,
  aderiam antes aos soldados que ao povo, o que, no obstante, se lhes
 tornava til ou no, conforme soubessem ou no conservar-se reputados
                              entre eles.
                                    
Das razes mencionadas, resultou que Marco, Pertinax e Alexandre, todos
eles de vida modesta, amantes da justia, inimigos da crueldade, humanos
e benignos, tiveram, a partir de Marco, triste fim. Somente Marco viveu
 e morreu honradssimo, visto ter sucedido no imprio jure hereditrio
  no tendo de agradec-lo nem aos soldados nem ao povo; depois, sendo
dotado de muitas virtudes que o faziam venerando, teve sempre, enquanto
viveu, uma ordem e outra dentro de seus limites, no sendo jamais odiado
  ou desprezado. Mas Pertinax, tornado imperador contra a vontade dos
   soldados que, acostumados a viver licenciosamente sob Cmodo, no
     puderam suportar aquela vida honesta a que o imperador queria
reduzi-los; por isso, tendo Pertinax criado dio contra si e a este dio
acrescido o desprezo por ser j velho, arruinou-se logo no incio de sua
                             administrao.
                                    
Deve-se notar aqui que o dio se adquire tanto pelas boas como pelas ms
  aes: como j disse acima, querendo um prncipe conservar o Estado,
freqentemente  forado a no ser bom, pois quando aquele elemento mais
    forte, povo, soldados ou grandes, de que julgas necessitar para
      manter-te,  corrompido, convm que sigas o seu desejo para
satisfaz-lo; ento, as boas obras tornam-se tuas inimigas. Mas passemos
a Alexandre, o qual foi de tanta bondade que, entre outros louvores que
lhe so endereados, existe este de que, em quatorze anos que conservou
  o poder, no foi executada qualquer pessoa sem julgamento; contudo,
 sendo considerado efeminado e homem que se deixava governar pela me,
      tornou-se desprezado, o exrcito conspirou e ele foi morto.
                                    
    Falando agora, por outro lado, das qualidades de Cmodo, Severo,
Antonino Caracala e Maximino, os achareis extremamente cruis e rapaces:
para satisfazer os soldados, no pouparam nenhuma espcie de injria que
pudesse ser cometida contra o povo; todos, exceto Severo, tiveram triste
fim.  que Severo possuiu tanto valor que, conservando os soldados como
seus amigos, ainda que o povo fosse por ele oprimido, pode sempre reinar
 com felicidade, pois aquelas suas virtudes o tornavam to admirvel no
conceito dos soldados e do povo, que este ficava por assim dizer atnito
  e aturdido e aqueles reverentes e satisfeitos. E, porque as aes do
  mesmo foram grandes e notveis num prncipe novo, desejo mostrar de
 forma breve quo bem soube usar a ao da raposa e do leo, naturezas
      essas que, disse acima, devem ser imitadas pelos prncipes.
                                    
  Tendo Severo conhecido a ignvia do Imperador Juliano, persuadiu seu
exrcito, do qual era capito na Stiavnia, de que era conveniente ir a
    Roma para vingar a morte de Pertinax, assassinado pelos soldados
   pretorianos; sob este pretexto, sem demonstrar aspirar o Imprio,
   conduziu o exrcito contra Roma, chegando  Itlia antes que fosse
 conhecida sua partida. Estando em Roma, o Senado, por temor, elegeu-o
    imperador, sendo morto Juliano. A seguir, restavam a Severo duas
  dificuldades para se assenhorear de todo o Estado: uma na sia, onde
    Pescnio Nigro, chefe dos exrcitos asiticos, se fizera aclamar
   imperador; a outra no Poente, onde estava Albino que, por sua vez,
tambm aspirava ao Imprio. Porque julgasse perigoso revelar-se inimigo
 de ambos, deliberou atacar Nigro e enganar Albino a quem escreveu que,
 tendo sido pelo Senado eleito imperador, desejava com ele compartilhar
  aquela dignidade; enviou-lhe o ttulo de Csar e, por deliberao do
      Senado, tornou-o seu colega. Albino aceitou tais coisas como
   verdadeiras; mas, depois que venceu e matou Nigro, pacificados os
 negcios orientais e retornado a Roma, Severo queixou-se ao Senado de
   que Albino, pouco reconhecido dos benefcios dele recebidos, tinha
  dolosamente procurado mat-lo, razo pela qual via necessidade de ir
punir sua ingratido. Depois, foi ao seu encontro na Frana e lhe tolheu
                          o governo e a vida.
                                    
Quem examinar, portanto, minuciosamente as aes deste homem, ach-lo-
   um ferocssimo leo e uma astuciosssima raposa, ve-lo- temido e
 reverenciado por todos e no odiado pelos exrcitos, no se admirando
    que ele, homem novo, tenha podido deter tanto poder; a sua alta
 reputao o defendeu sempre daquele dio que, pelas suas rapinagens, o
  povo contra ele poderia ter concebido. Mas Antonino, seu filho, foi,
    tambm ele, homem que possua excelentes qualidades que o faziam
maravilhoso no conceito do povo e querido pelos soldados; era um militar
   que suportava muito bem quaisquer fadigas, desprezava os alimentos
 delicados e abominava toda e qualquer frouxido, o que o tornava amado
por todos os exrcitos. Contudo, sua ferocidade e crueldade foi tanta e
  to inaudita, tendo mesmo, depois de inmeros assassnios privados,
morto grande parte da populao de Roma e toda aquela de Alexandria, que
 tornou-se extremamente odioso para todo o mundo: comeou a ser temido
    tambm por aqueles que o rodeavam, de forma que foi morto por um
                   centurio em meio ao seu exrcito.
                                    
     A propsito do referido,  de notar-se que tais assassinatos,
decorrentes da deliberao de um esprito obstinado, so impossveis de
 evitar por parte dos prncipes, porque todo aquele que no tema morrer
   pode golpe-los. Todavia, o prncipe pouco deve temer, porque tais
mortes so raras. Deve apenas cuidar de no fazer grave injria a algum
    daqueles de que se serve e que tem ao seu derredor no servio do
principado, como fez Antonino que havia morto vilmente um irmo daquele
 centurio e ainda ameaava este diariamente, enquanto o conservava na
sua prpria guarda; era resoluo temerria e capaz de destru-lo, como
                               aconteceu.
                                    
 Passemos a Cmodo, para quem era de grande facilidade manter o Imprio
    por possu-lo iure hereditario, uma vez que era filho de Marco;
bastava-lhe seguir as pegadas do pai e teria satisfeito os soldados e o
   povo. Mas, sendo de esprito cruel e bestial, para poder usar sua
  rapacidade contra o povo, passou a cativar os exrcitos e torn-los
  licenciosos; por outro lado, no mantendo a sua dignidade, descendo
   freqentemente s arenas para combater com os gladiadores, fazendo
  outras coisas extremamente vis e pouco dignas da majestade imperial,
tornou-se desprezvel no conceito dos soldados. E, sendo odiado por uns
      e desprezado por outros, conspiraram contra ele e foi morto.
                                    
Resta-nos narrar as qualidades de Maximino. Este foi homem belicosssimo
  e, estando os exrcitos enfastiados da moleza de Alexandre, de quem
   falei acima, morto este, elegeram-no para o governo. Maximino no
 possuiu o poder por muito tempo, pois duas coisas tornaram-no odiado e
desprezado: uma, o ser de condio extremamente vil, pois j apascentara
ovelhas na Trcia" (fato por todos bastante conhecido e que lhe causava
grande depreciao no conceito geral); a outra, porque, tendo no incio
    de seu principado retardado em ir a Roma e tomar posse do trono
   imperial, dera de si impresso de extremamente cruel, eis que, por
  intermdio de seus prefeitos, em Roma e em muitos pontos do Imprio,
 praticara numerosas crueldades. De modo que, agitado todo o mundo pelo
    desprezo  vileza de seu sangue e tomado de dio pelo medo  sua
  ferocidade, rebelou-se primeiro a frica, depois o Senado com todo o
   povo de Roma; toda a Itlia contra ele conspirou. A esse movimento
   juntou-se seu prprio exrcito que, fazendo campanha em Aquilia e
encontrando dificuldade no assdio, aborrecido de sua crueldade, temendo
             menos por v-lo com tantos inimigos, matou-o.
                                    
 No quero falar nem de Heliogbalo, nem de Macrino, nem de Juliano, os
    quais, por serem inteiramente desprezveis, se extinguiram logo;
passarei, pois,  concluso deste assunto. Assim, digo que os prncipes
  de nossos tempos tm a menos, nos seus governos, esta dificuldade de
 satisfazer extraordinariamente aos soldados, eis que, no obstante se
 deva ter para com os mesmos alguma considerao, isso se resolve logo,
pois nenhum destes prncipes tem um exrcito que seja inveterado com os
  governos e administraes das provncias, como eram os exrcitos do
Imprio Romano. Porm, se ento era necessrio mais, aos soldados do que
ao povo, isso decorria de que os soldados podiam mais que aquele; agora
      necessrio a todos os prncipes, exceto ao Turco e ao Sulto
 satisfazer mais ao povo que aos militares, porque aquele pode mais que
                                 estes.
                                    
 Fao exceo do Turco em razo de ter ele sempre, em torno de si, doze
 mil infantes e quinze mil soldados de cavalaria, dos quais dependem a
   segurana e o poderio do seu reino; e  necessrio que, postergada
 qualquer outra considerao, esse senhor os conserve amigos. E deveis
      notar que este Estado do Sulto  diverso de todos os outros
principados: ele  semelhante ao pontificado cristo, a que no se pode
chamar nem principado hereditrio nem principado novo, posto que no so
filhos do prncipe velho que herdam e se tornam senhores, mas sim aquele
    eleito para o posto pelos que tm autoridade. E, sendo esta uma
instituio antiga, no se pode chamar de principado novo, dado que nela
no existem algumas das dificuldades que se encontram nos novos: se bem
    o prncipe seja novo, as instituies desse Estado so velhas e
      ordenadas a receb-lo como se fosse seu senhor hereditrio.
                                    
Retornemos, porm, ao nosso assunto. Digo que todo aquele que considere
o acima exposto ver o dio ou o desprezo ter sido a causa da runa dos
 imperadores citados e saber, ainda, porque procedendo uma parte deles
 de um modo e a outra parte por forma contrria, em qualquer um desses
    modos de agir alguns deles tiveram fim feliz, enquanto os outros
terminaram infelizes. A Pertinax e Alexandre, por serem prncipes novos,
   foi intil e prejudicial querer imitar Marco que se encontrava no
principado iure hereditario ; igualmente, a Caracala, Cmodo e Maximino
  foi pernicioso o imitar Severo, por no possurem tanta virtude que
   fosse bastante para que pudessem seguir suas pegadas. Portanto, um
prncipe novo, num principado novo, no pode imitar as aes de Marco e
tampouco  necessrio seguir as de Severo; deve tomar de Severo aquelas
  qualidades que forem necessrias para fundar seu Estado, e de Marco
aquelas que forem convenientes e gloriosas para conservar um governo j
                         estabelecido e firme.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XX
                                    
SE AS FORTALEZAS E MUITAS OUTRAS COISAS QUE A CADA DIA SO FEITAS PELOS
                       PRNCIPES SO TEIS OU NO
                                    
   (AN ARCES ET MULTA ALIA QUAE COTIDIE A PRINCIPIBUS FIUNT UTILIA AN
                             INUTILIA SINT)
                                    
                                    
                                    
Para conservar seguramente o Estado, alguns prncipes desarmaram os seus
   sditos, outros mantiveram divididas as terras submetidas, alguns
nutriram inimizades contra si mesmos, outros dedicaram-se a conquistar o
apoio daqueles que lhes eram suspeitos no incio de seu governo, alguns
construram fortalezas, outros as arruinaram e destruram. E, se bem no
seja possvel estabelecer determinado juzo sobre todas essas coisas sem
  entrar nas particularidades de cada um dos Estados onde devesse ser
    tomada alguma dessas deliberaes, falarei de maneira genrica,
                       compatvel com o assunto.
                                    
  Jamais existiu um prncipe novo que desarmasse os seus sditos, mas,
   antes, sempre que os encontrou desarmados, armou-os; isto porque,
 armando-os, essas armas passam a ser tuas, tornam fiis aqueles que te
    so suspeitos, os que eram fiis assim se conservam e de sditos
    tornam-se teus partidrios. E, porque no se pode armar todos os
sditos, beneficiados aqueles que armas, com os outros podes tratar mais
seguramente; essa diversidade de tratamento que reconhecem em seu favor
 os torna obrigados para contigo e os outros desculpar-te-o, julgando
 ser necessrio tenham aqueles mais recompensas por estarem sujeitos a
maiores perigos e maiores obrigaes. Mas quando os desarmas, comeas a
ofend-los, mostras deles duvidar, ou por vileza ou por desconfiana uma
  ou outra destas opinies concebe dio contra ti. E, por no poderes
ficar desarmado, torna-se necessrio que te voltes  milcia mercenria,
que  daquela qualidade que j foi dita e, quando fosse boa, no poderia
   s-lo por forma a defender-te dos inimigos poderosos e dos sditos
                               suspeitos.
                                    
 Porm, como disse, um prncipe novo num principado tambm novo, sempre
 organizou as foras armadas e destes exemplos a histria est repleta.
 Mas, quando um prncipe conquista um novo Estado que, como membro, se
   agrega ao antigo, ento  necessrio desarmar o conquistado, salvo
 aqueles que, nele, foram teus partidrios na conquista; estes mesmos,
     com o tempo e a oportunidade, devem ser tornados amolecidos e
 efeminados, procedendo-se de modo que as armas fiquem somente em poder
de teus prprios soldados, daqueles que, no Estado antigo, estavam junto
                                 de ti.
                                    
   Os nossos antepassados e aqueles que eram considerados entendidos
costumavam dizer que Pistia precisava ser mantida pela diviso do povo
e Pisa pelas fortalezas; e, por isso mesmo, em algumas regies por eles
conquistadas, mantinham as discrdias entre os partidos para domin-las
mais facilmente. Isto, naqueles tempos em que a Itlia apresentava certo
  equilbrio, devia ser til. Mas no creio se possa admitir tal como
  preceito hodierno, eis que no acredito pudessem as divises, alguma
  vez, acarretar qualquer benefcio; ao contrrio, quando o inimigo se
avizinha, as cidades divididas, necessariamente, perdem-se logo, eis que
   sempre a parte mais fraca aderir s foras externas e a outra no
                            poder resistir.
                                    
Os venezianos, levados pelas razes acima mencionadas segundo acredito,
     incentivavam as faces guelfas e gibelinas nas cidades a eles
  submetidas; e, se bem nunca as deixassem chegar  luta, alimentavam
 entre elas essas divergncias para que, ocupados os cidados naquelas
suas diferenas, no se unissem contra eles. Isso, como se viu, no lhes
 aproveitou porque, derrotados em Vail, logo algumas daquelas cidades
   passaram a se insurgir e lhes tomaram todo o Estado. Tais atitudes
 revelam fraqueza do prncipe, eis que em um principado poderoso jamais
 sero permitidas semelhantes divises, teis somente em tempo de paz,
   eis que por elas pode-se mais facilmente manejar os sditos; mas,
        sobrevindo a guerra, tal sistema demonstra sua falcia.
                                    
  Sem dvida alguma, os prncipes se tornam grandes quando superam as
 dificuldades e as oposies que lhes so antepostas; porm a fortuna,
principalmente quando quer tornar grande um prncipe novo, que tem mais
 necessidade de adquirir reputao do que um hereditrio, o faz nascer
 dos inimigos e determina que lhe sejam opostos embaraos, a fim de que
  ele tenha oportunidade de super-los e, assim, possa subir mais alto
pela escada que os inimigos lhe oferecem, Por isso, muitos pensam que um
prncipe hbil deve, quando tenha ocasio, incentivar com astcia alguma
 inimizade para, eliminada esta, continuar a ascenso de sua grandeza.
                                    
Os prncipes, particularmente aqueles que so novos, tm encontrado mais
lealdade e maior utilidade nos homens que no incio de seu governo foram
     considerados suspeitos, do que nos que inicialmente eram seus
confidentes. Pandolfo Petrucci, prncipe de Siena, dirigia o seu Estado
mais com aqueles que lhe foram suspeitos do que com os que no o foram.
Mas deste assunto no  possvel falar em carter genrico, pois o mesmo
varia segundo cada caso. Somente direi isto: os homens que no incio de
um principado haviam sido inimigos, sendo de condio que para manter-se
precisam de apoio, o prncipe poder sempre com grande facilidade vir a
 conquist-los; e eles tanto mais so forados a servi-lo com lealdade,
   quanto reconheam ser-lhes necessrio cancelar com obras aquela m
  opinio que, a seu respeito, se fazia. Assim, o prncipe deles obtm
  sempre maior utilidade do que daqueles que, servindo-o com excessiva
                segurana, descuram de seus interesses.
                                    
   J que o assunto torna oportuno, no quero deixar de recordar aos
prncipes que tomaram um Estado novo pelo favor de alguns dos habitantes
   do mesmo deverem considerar bem qual a razo que determinou assim
   agissem os que o favoreceram; se a mesma no  afeio natural em
   relao a eles mas sim, se o apoio decorreu do fato dos mesmos no
   estarem satisfeitos com o Estado anterior, s com fadiga e grande
 dificuldade se poder conserv-los amigos, dado que  quase impossvel
  possam vir a ser contentados. E, considerando bem os exemplos que se
  extraem das coisas antigas e modernas, em razo disso, ver-se- ser
    muito mais fcil ao prncipe tornar amigos aqueles homens que se
  contentavam com o regime antigo e, portanto, eram seus inimigos, que
aqueles que, por descontentes, fizeram-se seus amigos e o favoreceram na
                               conquista.
                                    
   Tem sido costume dos prncipes, para poder manter seu Estado mais
seguramente, edificar fortalezas que sejam a brida e o freio postos aos
que desejassem enfrent-los, bem como um refgio seguro contra um ataque
de surpresa. Eu louvo esse proceder, porque usado desde tempos remotos;
  no obstante messer Nicol Vitelli, nos tempos atuais, destruiu duas
 fortalezas na Cidade de Castelo para, assim, conservar o Estado. Guido
  Ubaldo, Duque de Urbino, tendo retornado ao seu domnio de que havia
  sido expulso por Csar Brgia, destruiu desde os alicerces todas as
 fortalezas daquela provncia, por entender que sem aquelas seria mais
   difcil perder novamente seu Estado. Os Bentivoglio, retornados a
 Bolonha, usaram igual expediente. Portanto, as fortalezas so teis ou
 no, segundo os tempos; se te fazem bem por um lado, prejudicam-te por
  outro. Pode-se explicar esta afirmativa pela forma a seguir exposta.
                                    
  O prncipe que tiver mais temor de seu povo do que dos estrangeiros,
   deve construir as fortalezas; mas aquele que sentir mais medo dos
  estrangeiros que de seu povo, deve abandon-las. O castelo de Milo,
edificado por Francisco Sforza, fez e far mais guerra  casa dos Sforza
   do que qualquer outra desordem naquele Estado. Por isso, a melhor
  fortaleza que possa existir  o no ser odiado pelo povo: mesmo que
 tenham fortificaes elas de nada valem se o povo te odeia, eis que a
 este, quando tome das armas, nunca faltam estrangeiros que o socorram.
  Nos nossos tempos v-se que as fortalezas no tm sido proveitosas a
   prncipe algum, seno  Condessa de Forli quando foi morto o Conde
Girolamo, seu esposo, eis que a mesma, refugiando-se numa fortificao,
pode fugir ao mpeto popular, esperar pelo socorro de Milo e recuperar
  o Estado; ademais, as circunstncias eram tais que o estrangeiro no
    podia socorrer o povo. Depois, tambm para ela pouco valeram as
fortalezas quando Csar Brgia a atacou e o povo, seu inimigo, aliou-se
 ao estrangeiro. Portanto, teria sido mais seguro para ela, quer ento,
    quer antes, no ser odiada pelo povo do que possuir fortalezas.
 Consideradas assim todas estas questes, louvarei tanto os que fizerem
como os que no fizerem as fortalezas e censurarei aquele que, fiando-se
 nas fortificaes, venha a subestimar o fato de ser odiado pelo povo.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XXI
                                    
              O QUE CONVM A UM PRNCIPE PARA SER ESTIMADO
                                    
              (QUOD PRINCIPEM DECEAT UT EGREGIUS HABEATUR)
                                    
                                    
                                    
 Nada faz estimar tanto um prncipe como as grandes empresas e o dar de
 si raros exemplos. Temos, nos nossos tempos, Fernando de Arago, atual
 rei de Espanha. A este pode-se chamar, quase, prncipe novo, porque de
   um rei fraco tornou-se, por fama e por glria, o primeiro rei dos
cristos; e, se considerardes suas aes, as achareis todas grandiosas e
   algumas mesmo extraordinrias. No comeo de seu reinado, assaltou
 Granada e esse empreendimento foi o fundamento de seu Estado. Primeiro
ele o fez isoladamente, sem luta com outros Estados e sem receio de ser
 impedido de tal; manteve ocupadas nesse empreendimento as atenes dos
bares de Castela que, pensando na guerra, no cogitavam de inovaes e
ele, por esse meio, adquiria reputao e autoridade sobre os mesmos sem
que de tal se apercebessem. Pode manter exrcitos com dinheiro da Igreja
 e do povo e, com to longa campanha, estabeleceu a organizao de sua
  milcia que, depois, tanto o honrou. Alm disto, para poder encetar
 maiores empreendimentos, servindo-se sempre da religio, dedicou-se a
uma piedosa crueldade expulsando e livrando seu reino dos marranos, ao
  de que no pode haver exemplo mais miservel nem mais raro. Sob essa
 mesma capa, atacou a frica, fez a campanha da Itlia e, ultimamente,
assaltou a Frana; assim, sempre fez e urdiu grandes empreendimentos, os
  quais em todo o tempo mantiveram suspensos e admirados os nimos dos
 sditos, ocupados em esperar o xito dessas guerras. Essas suas aes
nasceram umas das outras, pelo que, entre elas, no houve tempo para que
                  os homens pudessem agir contra ele.
                                    
     Muito apraz a um prncipe dar de si exemplos raros na forma de
  comportar-se com os sditos, semelhantes queles que so narrados de
   messer Barnab de Milo, quando surge a oportunidade de algum ter
 realizado alguma coisa extraordinria de bem ou de mal na vida civil,
    obtendo meio de premi-lo ou puni-lo por forma que seja bastante
comentada, Acima de tudo, um prncipe deve empenhar-se em dar de si, com
 cada ao, conceito de grande homem e de inteligncia extraordinria.
                                    
 Um prncipe  estimado, ainda, quando verdadeiro amigo e vero inimigo,
   isto , quando sem qualquer considerao se revela em favor de um,
 contra outro. Esta atitude  sempre mais til do que ficar neutro, eis
    que, se dois poderosos vizinhos teus entrarem em luta, ou so de
 qualidade que vencendo um deles tenhas a temer o vencedor, ou no. Em
qualquer um destes dois casos ser sempre mais til o definir-te e fazer
 guerra digna, porque no primeiro caso se no te definires sers sempre
 presa do que vencer, com prazer e satisfao do que foi vencido, e no
    ters razo ou coisa alguma que te defenda nem quem te receba. O
vencedor no quer amigos suspeitos ou que no o ajudem nas adversidades;
  quem perde no te recebe por no teres querido correr a sua sorte de
                            armas em punho.
                                    
Antoco invadiu a Grcia a chamado dos etlios para expulsar os romanos.
 Enviou embaixadores aos aqueus, amigos dos romanos, para concit-los a
ficarem neutros, enquanto os romanos os persuadiam a tomar armas ao seu
 lado. Esta matria veio  deliberao do congresso dos aqueus, onde o
  legado de Antoco os induzia  neutralidade; a isto, o representante
  romano respondeu: Quod autem isti dicunt non interponendi vos bello,
  nihil magis alienum rebus vestris est; sine gratia, sine dignitate,
                       praemium victoris eritis.
                                    
Sempre acontecer que aquele que no  amigo procurar tua neutralidade
 e aquele que  amigo pedir que te definas com as armas. Os prncipes
  irresolutos, para fugir aos perigos presentes, seguem na maioria das
   vezes o caminho da neutralidade e, geralmente, caem em runa. Mas,
quando o prncipe se define galhardamente em favor de uma das partes, se
  aquele a quem aderes vence, mesmo que seja to poderoso que venhas a
ficar  sua discrio, ele tem obrigao para contigo e est ligado a ti
  pela amizade; e os homens nunca so to desonestos que, com tamanha
            prova de ingratido, possas vir a ser oprimido.
                                    
Alm disso, as vitrias nunca so to brilhantes que o vencedor no deva
 ter qualquer considerao, principalmente para com o que  justo. Mas,
   se aquele a quem aderes perder, sers amparado por ele e, enquanto
    puder, ajudar-te- e ficars associado a uma fortuna que poder
 ressurgir. No segundo caso, quando aqueles que lutam so de classe que
no devas temer o vencedor, ainda maior prudncia  aderir, pois causas
  a runa de um com a ajuda de quem deveria salv-lo, se fosse sbio;
vencendo, fica  tua merc, e  impossvel no vena com o teu auxlio.
                                    
Note-se aqui que um prncipe deve ter a cautela de jamais fazer aliana
   com um mais poderoso que ele para atacar os outros, seno quando a
necessidade o compelir, como se disse acima, porque, vencendo, torna-se
 seu prisioneiro; e os prncipes devem fugir o quanto possam de ficar 
 discrio dos outros. Os venezianos aliaram-se  Frana contra o duque
de Milo, podendo ter evitado essa aliana de que resultou a sua runa.
Mas, quando no se pode evit-la (como aconteceu aos florentinos quando
 o Papa e a Espanha levaram seus exrcitos a atacar a Lombardia), ento
 dever o prncipe aderir pelas razes acima expostas. Nem julgue algum
 Estado poder adotar sempre partidos seguros, devendo antes pensar ser
obrigado a tomar, freqentemente, partidos duvidosos; v-se na ordem das
  coisas que nunca se procura fugir a um inconveniente sem incorrer em
    outro e a prudncia consiste em saber conhecer a natureza desses
          inconvenientes e tomar como bom o menos prejudicial.
                                    
     Deve, ainda, um prncipe mostrar-se amante das virtudes, dando
 oportunidade aos homens virtuosos e honrando os melhores numa arte. Ao
  mesmo tempo, deve animar os seus cidados a exercer pacificamente as
    suas atividades no comrcio, na agricultura e em qualquer outra
ocupao, de forma que o agricultor no tema ornar as suas propriedades
 por receio de que as mesmas lhe sejam tomadas, enquanto o comerciante
   no deixe de exercer o seu comrcio por medo das taxas; deve, alm
disso, instituir prmios para os que quiserem realizar tais coisas e os
  que pensarem em por qualquer forma engrandecer a sua cidade ou o seu
 Estado. Ademais, deve, nas pocas convenientes do ano, distrair o povo
    com festas e espetculos. E, porque toda cidade est dividida em
corporaes de artes ou grupos sociais, deve cuidar dessas corporaes e
  desses grupos, reunir-se com eles algumas vezes, dar de si prova de
   humanidade e munificncia, mantendo sempre firme, no obstante, a
   majestade de sua dignidade, eis que esta no deve faltar em coisa
                                alguma.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XXII
                                    
            DOS SECRETRIOS QUE OS PRNCIPES TM JUNTO DE SI
                                    
               (DE HIS QUOS A SECRETIS PRINCIPES HABENT)
                                    
                                    
                                    
No  de pouca importncia para um prncipe a escolha dos ministros, os
    quais so bons ou no, segundo a prudncia daquele. E a primeira
conjetura que se faz da inteligncia de um senhor, resulta da observao
  dos homens que o cercam; quando so capazes e fiis, sempre se pode
reput-lo sbio, porque soube reconhec-los competentes e conserv-los.
 Mas, quando no so assim, sempre se pode fazer mau juzo do prncipe,
porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha, No houve
   ningum que, conhecendo messer Antnio de Venafro como ministro de
Pandolfo Petruci, prncipe de Siena, deixasse de julgar este senhor como
 extremamente valoroso pelo fato de ter aquele por ministro. E, porque
so de trs espcies as inteligncias, uma que entende as coisas por si,
   a outra que discerne o que os outros entendem e a terceira que no
entende nem por si nem por intermdio dos outros, a primeira excelente,
 a segunda muito boa e a terceira intil, estavam todos acordes que se
Pandolfo no se classificava no primeiro grau, estava, necessariamente,
 no segundo; porque, toda vez que algum tem a capacidade de conhecer o
  bem e o mal que uma pessoa faa ou diga, mesmo que por si no tenha
capacidade para solucionar os problemas, discerne as ms e as boas obras
   do ministro, exalta estas e corrige aquelas, e o ministro no pode
              esperar engan-lo, pelo que se conserva bom.
                                    
 Mas, para que um prncipe possa conhecer o ministro, existe um mtodo
que no falha. Quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti, e
 que em todas as aes procura o seu interesse prprio, podes concluir
   que este jamais ser um bom ministro e nele nunca poders confiar;
aquele que tem o Estado de outrem em suas mos no deve pensar nunca em
si, mas sim e sempre no prncipe, no lhe recordando nunca coisa que no
 seja da sua competncia. Por outro lado, o prncipe, para conserv-lo
      bom ministro, deve pensar nele, honrando-o, fazendo-o rico,
obrigando-se-lhe, fazendo-o participar das honrarias e cargos, a fim de
que veja que no pode ficar sem sua proteo, e que as muitas honras no
  o faam desejar mais honras, as muitas riquezas no o faam desejar
 maiores riquezas e os muitos cargos o faam temer as mudanas. Quando,
  pois, os ministros, e os prncipes com relao queles, esto assim
preparados, podem confiar um no outro; quando no for assim, o fim ser
               sempre danoso ou para um ou para o outro.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XXIII
                                    
                     COMO SE AFASTAM OS ADULADORES
                                    
                   (QUOMODO ADULATORES SINT FUGIENDI)
                                    
                                    
                                    
No quero deixar de tratar de um ponto importante, de um erro do qual os
 prncipes s com muita dificuldade se defendem, se no so de extrema
  prudncia ou se no fazem boa escolha. Refiro-me aos aduladores, dos
 quais as cortes esto repletas, dado que os homens se comprazem tanto
nas suas coisas prprias e de tal modo se iludem, que com dificuldade se
 defendem desta peste e, querendo defender-se, h o perigo de tornar-se
  menosprezado. No h outro meio de guardar-se da adulao, a no ser
fazendo com que os homens entendam que no te ofendem dizendo a verdade;
  mas, quando todos podem dizer-te a verdade, passam a faltar-te com a
                              reverncia.
                                    
 Portanto, um prncipe prudente deve proceder por uma terceira maneira,
   escolhendo em seu Estado homens sbios e somente a eles deve dar a
 liberdade de falar-lhe a verdade daquilo que ele pergunte e nada mais.
  Deve consult-los sobre todos os assuntos e ouvir as suas opinies;
depois, de liberar por si, a seu modo, e, com estes conselhos e com cada
   um deles, portar-se de forma que todos compreendam que quanto mais
 livremente falarem, tanto mais facilmente sero aceitas suas opinies.
 Fora aqueles, no querer ouvir ningum, seguir a deliberao adotada e
  ser obstinado nas suas decises. Quem procede por outra forma, ou 
  precipitado pelos aduladores, ou muda freqentemente de opinio pela
         variedade dos pareceres; da resulta a sua desestima.
                                    
 Quero, a este propsito, aduzir um exemplo atual. Pe. Lucas, homem do
atual Imperador Maximiliano, falando de Sua Majestade, disse que ele no
 se aconselhava com ningum e no fazia nada a seu modo; isso resultava
 de ter costume contrrio ao acima exposto. Porque o Imperador  homem
 discreto, no comunica a ningum os seus desgnios, no pede parecer;
    mas, como ao serem postos em prtica comeam a ser conhecidos e
  descobertos, comeam, a ser contrariados por aqueles que o cercam, e
ele, como  homem de opinio fraca, os desfaz. Dai resulta que as coisas
que faz num dia so destrudas no outro e que no se entenda nunca o que
 ele quer ou o que deseja fazer, no podendo pessoa alguma basear-se em
                           suas deliberaes.
                                    
Um prncipe, portanto, deve aconselhar-se sempre, mas quando ele queira
 e no quando os outros desejem; antes, deve tolher a todos o desejo de
  aconselhar-lhe alguma coisa sem que ele venha a pedir. Mas deve ser
 grande perguntador e, depois, acerca das coisas perguntadas, paciente
ouvinte da verdade; antes, notando que algum por algum respeito no lhe
diga a verdade, deve mostrar aborrecimento. H muitos que entendem que o
 prncipe que d de si opinio de prudente, seja assim considerado no
 pela sua natureza, mas pelos bons conselhos que o rodeiam, porm, sem
dvida alguma, esto enganados, eis que esta  uma regra geral que nunca
  falha: um prncipe que no seja sbio por si mesmo, no pode ser bem
  aconselhado, a menos que por acaso confiasse em um s que de todo o
  governasse e fosse homem de extrema prudncia. Este caso poderia bem
acontecer, mas duraria pouco, porque aquele que efetivamente governasse,
 em pouco tempo lhe tomaria o Estado; mas, aconselhando-se com mais de
    um, um prncipe que no seja sbio, no ter nunca os conselhos
  uniformes e no saber por si mesmo harmoniz-los. Cada conselheiro
pensar por si e ele no saber corrigi-los nem inteirar-se do assunto.
  E no  possvel encontrar conselheiros diferentes, porque os homens
   sempre sero maus se por uma necessidade no forem tornados bons.
   Consequentemente se conclui que os bons conselhos, venham de onde
  vierem, devem nascer da prudncia do prncipe, e no a prudncia do
                 prncipe resultar dos bons conselhos.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XXIV
                                    
          POR QUE OS PRNCIPES DA ITLIA PERDERAM SEUS ESTADOS
                                    
                (CUR ITALIAE PRINCIPES REGNUM AMISERUNT)
                                    
                                    
                                    
As coisas j referidas, observadas prudentemente, fazem um prncipe novo
parecer antigo e logo o tornam mais seguro e mais firme no Estado do que
  se a fosse um prncipe antigo. Porque um prncipe novo  muito mais
  observado nas suas aes do que um hereditrio; e, quando estas so
reconhecidas como virtuosas, atraem mais fortemente os homens e os ligam
 a si muito mais que a tradio do sangue. Porque os homens so levados
 muito mais pelas coisas presentes do que pelas passadas e, quando nas
   presentes encontram o bem, ficam satisfeitos e nada mais procuram.
  Antes, assumiro toda sua defesa, desde que no falte  palavra nas
   outras coisas. Assim, ter a dupla glria de ter dado incio a um
  principado novo e de t-lo ornado e fortalecido com boas leis, boas
    armas e bons exemplos; por outro lado, aquele que, tendo nascido
prncipe, veio a perder o Estado por sua pouca prudncia, ter duplicada
                            a sua vergonha.
                                    
  E, se se consideraram aqueles senhores que, na Itlia, perderam seus
  Estados nos nossos tempos, como o rei de Npoles, o duque de Milo e
  outros, achar-se- neles, primeiro um defeito comum quanto s armas,
 pelas razes que j foram expostas; depois, ver-se- que alguns deles,
ou tiveram a inimizade do povo, ou, tendo o povo por amigo, no souberam
garantir-se contra os grandes, eis que sem estes defeitos no se perdem
os Estados que tenham tanta fora que possam levar a campo um exrcito.
 Felipe da Macednia, no o pai de Alexandre, mas o que foi vencido por
  Tito Quinto, tinha um Estado no muito extenso, em comparao com a
grandeza dos romanos e da Grcia que o assaltaram; no obstante, por ser
homem de esprito militar, que sabia ter o povo como amigo e garantir-se
contra os grandes, sustentou por muitos anos a guerra contra aqueles; e
 se, afinal, perdeu o domnio de algumas cidades, restou-lhe todavia o
                                 reino.
                                    
 Portanto, estes nossos prncipes que tinham permanecido muitos anos em
 seus principados para depois perd-los, no podem acusar a sorte, mas
sim a sua prpria ignvia, pois, no tendo nunca, nos tempos pacficos,
 pensado que estes poderiam mudar (o que  defeito comum dos homens na
  bonana no se preocupar com a tempestade) quando chegaram os tempos
adversos preocuparam-se em fugir e no em defender-se, esperando que as
   populaes, cansadas da insolncia dos vencedores, os chamassem de
volta. Esse partido  bom quando os outros falham, mas  muito mau o ter
 abandonado os outros remdios por esse, pois no irs cair apenas por
acreditar encontrar quem te levante; isso no acontece ou, se acontecer,
no ser para tua segurana, dado que aquela defesa torna-se vil se no
depender de ti. As defesas somente so boas, certas e duradouras quando
                dependem de ti prprio e da tua virtude.
                                    
                                    
                                    
                              CAPTULO XXV
                                    
 DE QUANTO PODE A FORTUNA NAS COISAS HUMANAS E DE QUE MODO SE LHE DEVA
                                RESISTIR
                                    
 (QUANTUM FORTUNA IN REBUS HUMANIS POSSIT, ET QUOMODO ILLI SIT OCCURREN
                                  DUM)
                                    
                                    
                                    
No ignoro que muitos tm tido e tm a opinio de que as coisas do mundo
 sejam governadas pela fortuna e por Deus, de forma que os homens, com
sua prudncia, no podem modificar nem evitar de forma alguma; por isso
 poder-se-ia pensar no convir insistir muito nas coisas, mas deixar-se
   governar pela sorte. Esta opinio tornou-se mais aceita nos nossos
tempos pela grande modificao das coisas que foi vista e que se observa
todos os dias, independente de qualquer conjetura humana. Pensando nisso
  algumas vezes, em parte inclinei-me em favor dessa opinio. Contudo,
   para que o nosso livre arbtrio no seja extinto, julgo poder ser
 verdade que a sorte seja o rbitro da metade das nossas aes, mas que
ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase. Comparo-a a um desses
   rios torrenciais que, quando se encolerizam, alagam as plancies,
  destrem as rvores e os edifcios, carregam terra de um lugar para
   outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu mpeto, sem poder
opor-se em qualquer parte. E, se bem assim ocorra, isso no impedia que
   os homens, quando a poca era de calma, tomassem providncias com
anteparos e diques, de modo que, crescendo depois, ou as guas corressem
por um canal, ou o seu mpeto no fosse to desenfreado nem to danoso.
                                    
Da mesma forma acontece com a sorte, a qual demonstra o seu poderio onde
 no existe virtude preparada para resistir e, a, volta seu mpeto em
direo ao ponto onde sabe no foram construdos diques e anteparos para
cont-la, E, se considerardes a Itlia, que  a sede destas variaes e
 aquela que lhes deu motivo, vereis ser ela uma regio sem diques e sem
    qualquer anteparo, eis que se protegida por convenientes foras
       militares, como a Alemanha, a Espanha e a Frana, ou esse
 transbordamento no teria feito as grandes alteraes que fez, ou no
  teria ocorrido. Penso que isto seja suficiente quanto ao que tinha a
     dizer acerca da oposio que se pode antepor  sorte em geral.
                                    
Mas, restringindo-me mais ao particular, digo por que se v um prncipe
hoje em franco e feliz progresso e amanh em runa, sem que tenha mudado
    sua natureza ou as suas qualidades; isso resulta, segundo creio,
 primeiro das razes que foram longamente expostas mais atrs, isto ,
 que o prncipe que se apoia totalmente na sorte arruina-se segundo as
variaes desta. Creio, ainda, seja feliz aquele que acomode o seu modo
  de proceder com a natureza dos tempos, da mesma forma que penso seja
 infeliz aquele que, com o seu proceder, entre em choque com o momento
                             que atravessa.
                                    
 Isso decorre de ver-se que os homens, naquilo que os conduz ao fim que
   cada um tem por objetivo, isto , glrias e riquezas, procedem por
formas diversas: um com cautela, o outro com mpeto, um com violncia, o
  outro com astcia, um com pacincia e o outro por forma contrria; e
      cada um, por esses diversos meios, pode alcanar o objetivo.
                                    
 V-se, ainda, de dois indivduos cautos, um alcanar o seu objetivo, o
  outro no, e da mesma maneira, dois deles alcanarem igualmente fim
feliz com duas tendncias diversas, sendo, por exemplo, um cauteloso e o
   outro impetuoso; isso resulta apenas da natureza dos tempos que se
adaptam ou no ao proceder dos mesmos. Da decorre aquilo que eu disse,
isto , que dois indivduos agindo por formas diversas podem alcanar o
 mesmo efeito, ao passo que de dois que operem igualmente, um alcana o
                         seu fim e o outro no.
                                    
 Disto depende, ainda, a variao do conceito de bem, porque, se algum
   se orienta com prudncia e pacincia e os tempos e as situaes se
   apresentam de modo a que a sua orientao seja boa, ele alcana a
 felicidade; mas, se os tempos e as circunstncias se modificam, ele se
   arruina, visto no ter mudado seu modo de proceder. Nem  possvel
 encontrar homem to prudente que saiba acomodar-se a isso, seja porque
   no pode se desviar daquilo a que a natureza o inclina, seja ainda
 porque, tendo algum prosperado seguindo sempre por um caminho, no se
consegue persuadi-lo de abandon-lo. Por isso, o homem cauteloso, quando
  tempo de passar para o mpeto, no sabe faz-lo e, em conseqncia,
cai em runa, dado que se mudasse de natureza de acordo com os tempos e
            com as coisas, a sua fortuna no se modificaria.
                                    
   O Papa Jlio II, em todas as suas coisas procedeu impetuosamente e
encontrou tanto os tempos como as circunstncias coincidentes com aquele
seu modo de proceder, pelo que sempre alcanou feliz xito. Considerai a
 primeira campanha que encetou contra Bolonha, sendo ainda vivo messer
   Giovanni Bentivoglio. Os venezianos estavam descontentes; o rei da
Espanha, nas mesmas condies; com a Frana ainda discutia tal empresa.
  Isso no obstante, com ferocidade e mpeto, deu incio pessoalmente
quela expedio que, uma vez iniciada, fez com que ficassem suspensos e
parados tanto a Espanha como os venezianos, estes por medo, aquela pelo
 desejo de recuperar todo o reino de Npoles, de outra parte, arrastou
consigo o rei de Frana porque, vendo-o esse rei em campanha e desejando
    torn-lo seu amigo para aviltar os venezianos, julgou no poder
       negar-lhe a sua gente sem injuri-lo por forma manifesta.
                                    
Realizou Jlio, portanto, com seu movimento impetuoso, aquilo que jamais
outro pontfice, com toda a humana prudncia, teria feito, pois se ele,
    para partir de Roma, tivesse esperado estar com todos os planos
  estabelecidos e todas as coisas assentadas, como qualquer outro Papa
  teria feito, nunca teria obtido xito, eis que o rei de Frana teria
 apresentado mil desculpas e os outros lhe teriam incutido mil receios.
Desejo omitir as outras suas aes, todas semelhantes e todas com feliz
    xito, sendo que a brevidade da vida no o deixou experimentar o
  contrrio, dado que se tivessem sobrevindo tempos em que se tornasse
  necessrio agir com cautelas, surgiria a sua runa, pois jamais ele
 teria desviado daquele modo de proceder a que a natureza o inclinava.
                                    
Concluo, pois, que variando a sorte e permanecendo os homens obstinados
  nos seus modos de agir, sero felizes enquanto aquela e estes sejam
   concordes e infelizes quando surgir a discordncia. Considero seja
melhor ser impetuoso do que dotado de cautela, porque a fortuna  mulher
e consequentemente se torna necessrio, querendo domin-la, bater-lhe e
 contrari-la; e ela mais se deixa vencer por estes do que por aqueles
que procedem friamente. A sorte, porm, como mulher, sempre  amiga dos
jovens, porque so menos cautelosos, mais afoitos e com maior audcia a
                                dominam.
                                    
                                    
                                    
                             CAPTULO XXVI
                                    
    EXORTAO PARA PROCURAR TOMAR A ITLIA E LIBERT-LA DAS MOS DOS
                                BRBAROS
                                    
     (EXHORTATIO AD CAPESSENDAM ITALIAM IN LIBERTATEMQUE A BARBARIS
                              VINDICANDAM)
                                    
                                    
                                    
Consideradas pois, todas as coisas j expostas, pensando comigo mesmo se
  no momento presente, na Itlia, corriam tempos capazes de honrar um
 prncipe novo e se havia matria que assegurasse a algum, prudente e
 valoroso, a oportunidade de nela introduzir nova organizao que a ele
  desse honra e fizesse bem a todo o povo, quer me parecer concorrerem
 tantas circunstncias favorveis a um prncipe novo que no sei qual o
tempo que poderia ser mais adequado para isto. E se, como j disse, para
  se conhecer a virtude de Moiss foi necessrio que o povo de Israel
  estivesse escravizado no Egito, para conhecer a grandeza do nimo de
 Ciro, que os persas fossem oprimidos pelos medas, e o valor de Teseu,
  que os atenienses estivessem dispersos, tambm no presente, querendo
   conhecer a virtude de um esprito italiano, seria necessrio que a
  Itlia se reduzisse ao ponto em que se encontra no momento, que ela
   fosse mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que os
   persas, mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem,
batida, espoliada, lacerada, invadida, e tivesse suportado runa de toda
                                 sorte.
                                    
Se bem tenha surgido, at aqui, certo vislumbre de esperana em relao
  a algum prncipe, parecendo poder ser julgado como dirigido por Deus
  para redeno da Itlia, contudo foi visto depois como, no apogeu de
 suas aes, foi abandonado pela sorte. De modo que, tornada sem vida,
espera ela por aquele que cure as suas feridas e ponha fim aos saques da
  Lombardia, s mortandades no Reino de Npoles e na Toscana, e a cure
daquelas suas chagas j de h muito enfistuladas. V-se como ela implora
  a Deus lhe envie algum que a redima dessas crueldades e insolncias
    brbaras. V-se, ainda, toda ela pronta e disposta a seguir uma
                bandeira, desde que haja quem a empunhe.
                                    
   Nem se v no presente em quem possa ela confiar a no ser na vossa
ilustre casa, a qual, com a sua fortuna e virtude, favorecida por Deus e
  pela Igreja, da qual  agora prncipe, poder tornar-se chefe desta
redeno. Isso no ser muito difcil, se procurardes seguir as aes e
   a vida dos acima indicados. E, se bem aqueles homens sejam raros e
maravilhosos, sem dvida foram homens, todos eles tiveram menor ocasio
  que a presente: porque os empreendimentos dos mesmos no foram mais
justos nem mais fceis do que este, nem foi Deus mais amigo deles do que
 de vs.  de grande justia o que digo: iustum enim est bellum quibus
 necessarium, et pia arma ubi nulla nisi in armis spes est. Aqui h uma
grande disposio, e onde esta existe no pode haver grande dificuldade,
  desde que se imite o modo de agir daqueles que apontei como exemplo.
  Alm disso, aqui se vem acontecimentos extraordinrios emanados de
Deus: o mar se abriu, uma nuvem revelou o caminho, a pedra verteu gua,
aqui choveu o man; todas as coisas concorreram para a vossa grandeza. O
restante deve ser feito por vs. Deus no quer fazer tudo, para no nos
tolher o livre arbtrio e parte daquela glria que compete a ns. E no
  de admirar se algum dos j citados italianos no tenha podido fazer
 aquilo que se pode esperar faa a vossa ilustre casa, e se, em tantas
revolues da Itlia e em tantas manobras de guerra, parecer sempre que
  nesta a virtude militar esteja extinta. Isso resulta de que as suas
 antigas instituies no eram boas e no houve quem soubesse encontrar
 outras; e nenhuma coisa faz tanta honra a um prncipe novo, quanto as
novas leis e os novos regulamentos por ele elaborados. Estes, quando so
   bem fundados e em si encerrem grandeza, tornam o prncipe digno de
reverncia e admirao; na Itlia no faltam motivos para introduzir-se
 qualquer reforma. Aqui existe grande valor no povo, enquanto ele falta
 nos chefes. Observei nos duelos e nos combates individuais o quanto os
   italianos so superiores na fora, na destreza ou no engenho. Mas,
  quando se passa para os exrcitos, no comparecem. E tudo resulta da
  fraqueza dos chefes, porque aqueles que sabem no so obedecidos, e
todos julgam saber, no tendo surgido at agora algum que tenha sabido
  se sobressair pela virtude ou pela fortuna de forma a que os outros
  cedam. Da decorre que, em tanto tempo, em tantas guerras feitas nos
   ltimos vinte anos, sempre que se formou um exrcito inteiramente
    italiano o mesmo deu mau exemplo, do que do prova Taro, depois
           Alexandria, Cpua, Gnova, Vail, Bolonha, Mestri.
                                    
Querendo, pois, a vossa ilustre casa seguir aqueles homens excelentes e
 redimir suas provncias,  necessrio, antes de toda e qualquer outra
coisa, como verdadeiro fundamento de qualquer empreendimento, prover-se
de tropas prprias, pois no se pode conseguir outras mais fiis e mais
  seguras, nem melhores soldados. E, ainda que cada um deles seja bom,
  todos juntos tornar-se-o ainda melhores, quando se virem comandados
    pelo seu prncipe e por este honrados e mantidos.  necessrio,
 portanto, preparar esses exrcitos, para poder, com a virtude itlica,
                     defender-se dos estrangeiros.
                                    
    E, se bem as infantarias suas e espanholas sejam consideradas
   terrveis, em ambas existem defeitos, pelo que um terceiro tipo de
infantaria poderia no somente opor-se-lhes, mas confiar em super-las.
Porque os espanhis no podem enfrentar a cavalaria e os suos devero
ter medo dos infantes, quando no combate os encontrarem obstinados como
 eles. J se viu, e v-se ainda, os espanhis no poderem enfrentar uma
   cavalaria francesa e os suos serem derrotados por uma infantaria
 espanhola. E, se bem deste ltimo caso no se tenha tido plena prova,
contudo viu-se uma amostra na campanha de Ravena, quando as infantarias
  espanholas se defrontaram com os batalhes alemes, que tm a mesma
  organizao dos suos; a os espanhis, com a agilidade do corpo e
auxlio dos seus pequenos escudos, haviam-se colocado debaixo dos chuos
 alemes e estavam certos de feri-los e mat-los sem que os mesmos tal
pudessem impedir; realmente, no fosse a cavalaria que os atacou, teriam
morto todos os inimigos. Pode-se, pois, conhecido o defeito de uma e de
    outra dessas infantarias, organizar uma diferente, que resista 
 cavalaria e no tenha medo dos infantes, o que dar qualidade superior
 aos exrcitos e impor a mudana de tticas. Estas so daquelas coisas
     que, reformadas, do reputao e grandeza a um prncipe novo.

  No se deve, pois, deixar passar esta ocasio, a fim de que a Itlia
conhea, depois de tanto tempo, um seu redentor. Nem posso exprimir com
que amor ele seria recebido em todas aquelas provncias que tm sofrido
   por essas invases estrangeiras, com que sede de vingana, com que
  obstinada f, com que piedade, com que lgrimas. Quais portas se lhe
   fechariam? Quais povos lhe negariam obedincia? Qual inveja se lhe
  oporia? Qual italiano lhe negaria o seu favor? A todos repugna este
 brbaro domnio. Tome, portanto, a vossa ilustre casa esta incumbncia
  com aquele nimo e com aquela esperana com que se abraam as causas
 justas, a fim de que, sob sua insgnia, esta ptria seja nobilitada e
        sob seus auspcios se verifique aquele dito de Petrarca:

                          Virtude contra Furor
                 Tomar Armas; e Faa o Combater Curto
                           Que o Antigo Valor
                Nos Itlicos Coraes Ainda no  Morto.



           CARTA DE MACHIAVELLI A FRANCESCO VETTORI, EM ROMA

                     (RELATIVA  OBRA IL PRNCIPE)



Magnifico oratori Florentino Francisco Vectori apud Summum Pontificem et
                            benefactori suo.

                                 Romae,

Magnfico embaixador. Tardias jamais foram as graas divinas. Digo isto
porque me parecia no ter perdido mas sim estar esmaecida a vossa graa,
 tendo estado vs muito tempo sem escrever-me; estava em dvida de onde
 pudesse vir a razo de tal. E dava pouca importncia a todas as causas
que vinham  minha mente, salvo quando pensava que tivsseis retrado de
   escrever-me, porque vos tivesse sido escrito que eu no fosse bom
   guardio de vossas cartas; e eu sabia que, afora Filippo e Pagolo,
 outros, de minha parte, no as tinham visto. Readquiri essa graa pela
 vossa ltima de 23 do ms passado, pelo que fico contentssimo ao ver
   quo ordenada e calmamente exerceis essa funo pblica, e eu vos
 concito a continuar assim, porque quem deixa as suas comodidades pelas
  comodidades dos outros, perde as suas e destes no recebe gratido.
  Desde que a fortuna quer dispor todas as coisas,  preciso deix-la
fazer, ficar quieto e no lhe criar embarao, esperando que o tempo lhe
  permita fazer alguma coisa pelos homens; ento, ser bem suportardes
  maiores fadigas, zelar melhor das coisas, e a mim convir partir da
 vilas e dizer: eis-me aqui. No posso, portanto, desejando render-vos
 iguais graas, dizer nesta minha carta outra coisa que no aquilo que
 seja a minha vida, e se julgardes tal que valha troc-la com a vossa,
                      ficarei contente em mud-la.

 Aqui estou, na vila; depois que ocorreram aqueles meus ltimos casos,
   no estive, somando todos, vinte dias em Florena. At aqui tenho
  apanhado tordos  mo. Levantava-me antes do amanhecer, preparava a
armadilha, ia-me alm com um feixe de gaiolas ao ombro, que at parecia
  o Getas quando o mesmo voltava do porto com os livros de Anfitrio;
apanhava no mnimo dois e no mximo seis tordos. E, assim, passei todo o
    ms de setembro. Depois esse passatempo, ainda que desprezvel e
 estranho, veio a faltar com desgosto meu. Dir-vos-ei qual a minha vida
 agora. Levanto-me de manh com o sol e vou a um meu bosque que mandei
 cortar, onde fico duas horas a examinar o trabalho do dia anterior e a
  passar o tempo com aqueles cortadores que esto sempre s voltas com
algum aborrecimento entre si ou com os vizinhos. Acerca deste bosque eu
   teria a dizer-vos mil belas coisas que me aconteceram, bem como de
   Frosino de Panzano e dos outros que queriam desta lenha. Frosino,
 principalmente, mandou buscar certa quantidade sem dizer-me nada e, na
ocasio do pagamento, queria reter dez liras que disse ter ganho de mim,
  h quatro anos, num jogo de cricca em casa de Antnio Guicciardini.
   Comecei a fazer o diabo: queria acusar o carroceiro, que fora ali
mandado por ele, como ladro. Enfim Giovanni Machiaveili interveio e nos
ps de acordo. Batista Guicciardini, Filippo Ginori, Tommaso dei Bene e
alguns outros cidados, quando aqueles maus ventos sopravam, cada um me
 adquiriu uma ruma de lenha. Prometi a todos e mandei uma a Tommaso, a
qual chegou a Florena pela metade, porque, para empilh-la, ali estavam
  ele, a mulher, as criadas e os filhos, os quais pareciam o Gabburra
  quando na quinta-feira, com seus rapazes, abate um boi. De modo que,
visto em quem eu depositava o meu ganho, disse aos outros que no tinha
  mais lenha; todos se encolerizaram e agastaram comigo, especialmente
      Batista, que inclui esta entre as demais desgraas de Prato.

 Saindo do bosque, vou a uma fonte e, daqui, ao meu viveiro de tordos.
Levo um livro comigo, ou Dante ou Petrarca, ou um desses poetas menores,
  Tbulo, Ovidio e semelhantes; leio aquelas suas amorosas paixes, e
 aqueles seus amores lembram-me os meus; deleito-me algum tempo nestes
pensamentos. Depois, vou pela estrada at  hospedaria; falo com os que
 passam, pergunto notcias das suas cidades, ouo muitas coisas e noto
  vrios gostos e fantasias dos homens. Enquanto isso, chega a hora do
almoo, quando com a minha famlia como aqueles alimentos que esta pobre
vila e este pequeno patrimnio comportam. Terminado o almoo, retorno 
 hospedaria; aqui, geralmente, esto o estalajadeiro, um aougueiro, um
  moleiro e dois padeiros. Com estes eu me rebaixo o dia todo jogando
  cricca, trichtach, e, depois, da nas cem mil contendas e infinitos
  acintes com palavras injuriosas; a maioria das vezes se disputa uma
   insignificncia e, contudo, somos ouvidos gritar por So Casciano.
    Assim, envolvido entre estes piolhos, cubro o crebro de bolor e
     desabafo a malignidade de minha sorte, ficando contente se me
encontrsseis nesta estrada para ver se essa malignidade se envergonha.

Chegada a noite, retorno para casa e entro no meu escritrio; na porta,
dispo a roupa quotidiana, cheia de barro e lodo, visto roupas dignas de
   rei e da corte e, vestido assim condignamente, penetro nas antigas
   cortes dos homens do passado onde, por eles recebido amavelmente,
 nutro-me daquele alimento que  unicamente meu, para o qual eu nasci;
no me envergonho ao falar com eles e perguntar-lhes das razes de suas
  aes. Eles por sua humanidade, me respondem, e eu no sinto durante
   quatro horas qualquer tdio, esqueo todas as aflies, no temo a
pobreza, no me amedronta a morte: eu me integro inteiramente neles. E,
   porque Dante disse no haver cincia sem que seja retido o que foi
apreendido, eu anotei aquilo de que, por sua conversao, fiz capital, e
 compus um opsculo De Principatibus, onde me aprofundo o quanto posso
  nas cogitaes deste assunto, discutindo o que  principado, de que
espcies so, como so adquiridos, como se mantm, porque so perdidos.
 Se alguma vez vos agradou alguma fantasia minha, esta no vos deveria
  desagradar; e um prncipe, principalmente um prncipe novo, deveria
aceitar esse trabalho: por isso eu o dedico  magnificncia de Juliano.
 Filippo Casavecchia o viu e vos poder relatar mais ou menos como  e
 das conversas que tive com ele, se bem que freqentemente eu aumente e
                            corrija o texto.

Vs desejareis, magnfico embaixador, que eu deixasse esta vida e fosse
  gozar convosco a vossa. Eu o farei de qualquer maneira; mas o que me
   retm por ora so certos negcios que dentro de seis semanas terei
    ultimado. O que me deixa ficar em dvida  que esto ai aqueles
 Soderini, aos quais eu seria forado, estando a, a visitar e a falar.
Receio que ao meu retorno, pensando apear em casa, viesse a desmontar no
Bargiello, eis que, se bem este Estado" tenha mui slidas bases e grande
   segurana, ele  novo e, por isso, cheio de suspeitas; nem faltam
  sabidos que, para aparecer, como Pagolo Bertini, meteriam outros na
     priso e deixariam a meu cargo os aborrecimentos. Peo-vos me
 tranqilizeis deste receio e, depois, dentro do tempo mencionado, irei
                     visitar-vos de qualquer modo.

Discuti com Filippo sobre esse meu opsculo, se convinha d-lo ou no e,
sendo acertado d-lo, se era mais conveniente que eu o levasse ou que o
 mandasse. No me fazia d-lo o receio de que Juliano no o lesse e que
  esse Ardinghelli se honrasse com esse meu ltimo trabalho. Por outro
  lado, d-lo satisfaria a necessidade que me oprime, porque estou em
  runa e no posso permanecer assim por muito tempo, sem que me torne
  desprezvel por pobreza, isso alm do desejo que teria de que esses
    senhores Medici passassem a utilizar-me, se tivesse de comear a
fazer-me rolar uma pedra; porque, se depois no conseguisse ganhar o seu
    favor, lamentar-me-ia de mim mesmo, eis que, quando fosse lido o
 opsculo, ver-se-ia que os quinze anos que estive no estudo da arte do
 Estado, no os dormi nem brinquei, devendo todo homem achar agradvel
servir-se de algum que, a custas de outros, fosse cheio de experincia.
   E da minha fidelidade no se deveria duvidar porque, tendo sempre
observado a lealdade, no devo aprender agora a romp-la; quem foi fiel
  e bom durante quarenta e trs anos, que eu os tenho, no deve poder
  mudar sua natureza; da minha lealdade e bondade  testemunho a minha
                                pobreza.

  Desejaria, pois, que vs ainda me escrevsseis aquilo que sobre este
          assunto vos parea. A vs me recomendo. Seja feliz.

                         10 de Dezembro de 1513
                           NICOL MACHIAVELLI
                               Florena.
